domingo, dezembro 05, 2004

Quero de volta

- Você também queria esta separação?
- Éramos apenas amigos, não tinha porque continuarmos juntos...

Esse "também" foi minha fraqueza, minha rota de fuga, inconscientemente colocada para proteger a mim mesmo, embora eu pudesse achar que fora para deixá-la mais à vontade com a pergunta. Eu a havia convidado para, finalmente, saber o que a levou a aceitar, sem pestanejar, minha iniciativa de falar em separação, mas tropecei em meu próprio "também" e fugi do assunto. Tomamos o café e fomos embora.

Mas eu não queria me separar. Não de verdade. Eu não a via como apenas como uma amiga. Eu estava cansado de tentar, de lutar, abatido, descrente, entregue. E achei que poderia ser a saída menos dolorosa, mas o que eu queria mesmo era descobrir o que fazer para tudo voltar a ser como no começo. Ou melhor, bom como no começo, porque igual ao que eram as coisas nunca voltam a ser. Foi um choque vê-la e ouvi-la concordar que era o melhor a fazer. Uma inversão de expectativa tão impactante, em sua tranqüilidade, que eu nem consegui questionar. Aceitei também. Naquela hora eu soube que essa era sua vontade, mais do que minha.

Levou-me tempo até entender que nossa falta de sintonia nada mais era do que essa sua vontade, fazendo por onde que eu tomasse a atitude, evitando-lhe a dor de dizer que já não me amava, a dor de tanto se abrir, e, de quebra, a minha dor ao ouvir-lhe dizer que já não me amava. Talvez, ainda, a dor que seria o causar-me essa dor. Então, posso entender como um ato de amor o eu ter-lhe poupado essas dores. Mas que ato de amor doente! E doente fiquei, sem saber para onde ir, sem poder amar de novo, refém desta dor, porque meu amor ficou à deriva, uma vez entregue e, então, abandonado.

Eu o quero de volta! Quero de volta para poder vivê-lo novamente. Agora, que eu sei que não era correspondido, ou entendido, talvez eu consiga recuperá-lo, reconstrui-lo, por minhas próprias forças. Mas como seria mais feliz recebê-lo de volta, das mãos a que um dia entreguei, não para ser guardado num relicário, mas para que brilhasse, radiante e ardente, e deitasse-lhe o mundo aos pés. Bastava-me saber o porquê.




(Abril 2003)