domingo, dezembro 05, 2004

Ódio mortal

Aquele romance, decididamente, fora um retrocesso em sua vida, ela não tinha mais a menor dúvida sobre isso. E pior que o fora no curto espaço de dois meses. Acabara com o auto-contentamento arduamente conseguido a custo de muita terapia, ou seja, tempo e dinheiro. E acabara ali mesmo, naquele vagão subterrâneo, publicamente, sem o menor pudor.

Nem queria mais pensar nisso, batucando com o anel no isqueiro metálico dentro do bolso largo, observava o vai e vem de toda aquela gente no metrô, faces sem alegria nem vontade. Tudo o que queria era chegar em casa logo, jogar-se na cama, por sobre a colcha mesmo, e ficar a olhar o teto até furá-lo de tédio, sensação que já sentia voltar-lhe a dominar a alma - não que em algum momento ele a tivesse abandonado, não: sempre a habitara, perene, mas escondia sua face tão expressiva quanto estas do vagão nas sombras e se fortalecia nesses momentos difíceis em que se deve tomar uma decisão, colocá-la em prática e arcar com suas conseqüências.

Mas não seria assim tão simples o seu domingo mal começado, só cama e televisão, pizza e refrigerante. Até sabia que o telefone tocaria assim que entrasse em casa, para alguma fofoca ou conversa sem importância, que o porteiro ensebado, fútil e enxerido perguntaria pelo namorado - este ridículo dava conversa para qualquer um que lhe puxasse o saco, bolas: o tal do porteiro já tinha até cadeira reservada no casamento! Essas coisas faziam parte do tédio que ela bem conhecia, eram justamente o que o tornava mais tedioso - convenções, cordialidades e bons-dias que sentia-se obrigada distribuir mesmo que não quisesse. Não, isso era o de menos. Porque ela nem se lembrava do compromisso assumido para hoje. Foi apenas ao ouvir o recado na secretária eletrônica - sabia que os italianos dizem secretaria, pois a máquina é o lugar onde se deixam recados, e não uma pessoa? - sua mente, embora embebida e afogada em tédio, ainda tinha de peralta o suficiente para se permitir artifícios de fuga banais e rasos como esse, evitando dar atenção à angústia que começava a lhe oprimir. Ela gostava de poder fazer isso. De sabê-lo. Era um saber antigo, que ela tinha como certo e útil, mas certamente efêmero. Por outro lado, o que ela menos queria era pensar de verdade, então não se fazia de difícil a si mesma.

Mas o recado na secretária! Olha o relógio - e daí que horas são? Não há referência de tempo na mensagem da irmã, o relógio da secretária pisca desde a primeira falha na energia elétrica - você arruma o da sua? - e ela não tem, mesmo, escolha. Deve sair imediatamente. O coração bate. Ainda bem que sim, mas a gente só percebe quando bate oprimido pela pressa ou pelo medo. Porque quando era pelo tédio de agora há pouco, seu bater é um sopro débil e tísico que mal se faz presente. Procura a chave do carro, demora para encontrá-la na sacola junto com o livro que deveria ter devolvido ao desgraçado ontem, mas inventaram de sair à pé, preferia não carregar o incômodo, mas agora bem acha que poderia ter levado para esquecê-lo em qualquer canto de bar ou da condução mesmo.

Desce correndo pelas escadas, preferindo a ralada de cotovelo na parede chapiscada do que a impaciência da espera do elevador. O cheiro forte de tinta fresca na garagem a deixa tonta, a vaga é apertada, pronto, a calça nova agora tinha uma faixa amarela e outra preta, na lateral da coxa esquerda. Bom, fora presente do maldito, não iria durar muito mesmo. Mais uma: pouca gasolina no tanque. Inevitável parar para abastacer. Ótima oportunidade para descobrir o estouro no limite do cartão de crédito e errar o preenchimento da última folha do talão de cheques. Bom, o frentista a reconheceu do dia-a-dia e, observando seu estado, sugeriu-lhe que passasse amanhã cedinho - antes de a patroa dele chegar, que ela era casca de ferida. Promessa feita.

Mas por que, raios, eles tinham que arrumar um rancho de pesca táo longe? Céus?! Por que um rancho de pesca?! Que tédio! Mas também, que boa idéia essa de encher a cara na véspera. Música. Com isso chegaria mais cedo, em sua vaga impressão do passar do tempo. Era isso o de que precisava para se distrair da distância e da contrariedade que sentia por esse passeio estúpido que a sobrinha mimada havia escolhido para festejo de aniversário. O pior é que, além de mimada pela mãe e pela avó, o era ainda pelo mesmo sujeito sem valor que lhe embebedara para suavizar-lhe as reações, que sabia que de outra forma seriam coléricas, e ainda esperou que estivessem num lugar público e movimentado, covarde filho de uma mula manca. Odiou-o tanto que enfiou o próprio carro, acelerado no limite do curso do pedal, debaixo da carreta de areia que seguia a passo de lesma pela pista da direita.




(Fevereiro 2004)