domingo, dezembro 05, 2004

Tudo ao mesmo tempo. Agora.

Para observar o Sol sem ficar cego, é preciso saber ver. As reações termonucleares que lá ocorrem se repetem numa infinidade de pontos do Universo, pontos que vemos melhor a percorrer o céu limpo e seco, em noites nas quais a Lua, por capricho dos movimentos períódicos de distintas durações, está no lado da Terra oposto a nós. E, no entanto, aquelas reações têm importância especial para nós, porque a soma desses núcleos resulta em algo mais do que apenas um núcleo cujo peso é a soma dos pesos dos núcleos originais: desprende-se energia, já que a soma das quantidades dela que eram necessárias para manter a coesão interna em cada original é de sobra para manter a do novo núcleo.

Essa pequena contribuição, somada a outras tantas, viaja na forma de fóton, em todas as direções, e uma pequena parcela chega à Terra. Outra parcela, ainda menor, chega aos nossos olhos e descarrega sua energia em células sensíveis. Mas estas não são sensíveis a todos os fótons. Apenas àqueles que têm o montante de energia dentro de uma faixa determinada, correspondente à faixa de freqüências que dizemos visíveis. E assim vemos o que há onde olhamos. Estes pacotinhos de energia são necessários e suficientes para causar reações químicas nestas células e estas reações causam outras reações em outras células, e esse processo de reações em cadeia é o impulso nervoso que, tal como qualquer sinal, propaga-se, indo atingir o cérebro, onde é processado ou, equivalentemente, dispara mais reações, de naturezas diversas porque diversas são as naturezas das células
e das redes delas que são sensibilizadas pelos sinais. E então, depois de olhar e ver, dá-se o milagre: enxergamos.

Vemos a chuva cair e a água escorrer nas mais variadas rotas e velocidades, as quais poderíamos, em princípio, calcular e prever, bastando apenas que conhecêssemos a posição e a velocidade de cada partícula, tanto da água quanto da terra que lhe serve de leito ou obstáculo. Mas olhando para a água, enxergamos não apenas corredeiras e redemoinhos, mas uma outra infinidade de caminhos pelos quais segue a água. Alguns desses caminhos são através do solo, quando a urbanização não o impede. Outros são pelo ar mesmo, quando o chão está quente e sentimos o cheiro da chuva, na terra, no asfalto ou no concreto. De uma forma ou de outra, uma pequena parcela dessa água não volta para oceanos em cujas ondas, causadas por uma conjunção de fatores não intencionais tão diversos como os movimentos tectônicos, a posição dos astros nas suas órbitas caprichosas, os ventos, e quem dirá que a lista se encerra em algum momento, em cujas ondas nos deixamos escorregar em jacaré até o capote perto da praia, com os cabelos cheios de areia. Parte vai para represas e lençóis freáticos, que facilitam nossa vida em comunidade. Mas ainda há outra parte que, toda pulverizada, vai parar nos tecidos celulares das plantas que nos darão frutos e em nossos próprios tecidos, não por acaso também celulares, tecidos tramados com os minerais e moléculas destes frutos, com o oxigênio do ar que sustenta o vôo de pássaros e aviões, e com outra parcela da água, em processos bioquímicos que são parte da definição material de vida.

Estes intrincados processos têm um delicado equilíbrio dinâmico, constituído este também pela simbiose de diversos outros processos dinamicamente equilibrados em escalas menores. E fatos há que nos fazem supor que estas redes de processos não sejam intencionais, não tenham sido escritas - não nesse nível de concretização - por um Deus, seja qual for o nome que Lhe é dado - ainda que toda essa maneira de ver não se oponha nem pressuponha uma Tal existência e intencionalidade em níveis mais sutis. Estes fatos são os numerosos exemplos em que o equilíbrio, uma vez quebrado, volta a se fazer presente, em outra forma, com outras condições e processos, como quando algumas espécies de seres vivos se extinguem e outras surgem - não necessariamente como evolução das anteriores, mas apenas como agentes e pacientes, necessários e dependentes, de um novo equilíbrio.

Para que as Ciências Naturais senão para nos trazer à consciência a nossa
parte integrante nestes e em muitos outros processos? Senão para nos
permitir enxergar aquilo que devemos ver? O que dizer, ainda, da
Matemática? Esta é, ao mesmo tempo, a linguagem que permite expressar mais precisamente as teorias das Ciências Naturais, a ferramenta que permite a investigação científica e, não raro, a induz.

Aqui, vamos questionar uma falácia corrente, que chega a ser uma injustiça. A Matemática recebeu, há muito, o honorável título de Ciência, por seus métodos rigorosos de trabalho e pelas teorias altamente consistentes que produz - ainda que ela própria contenha, em seu corpo, a demonstração de que nenhuma teoria é inteiramente consistente, se não há mínimas afirmações a priori, ou postulados; este é, de maneira superficial, o chamado Teorema de Gödel. E mais, a inquestionabilidade das afirmações que produz rendeu-lhe a pecha de Exata. Ciência Exata. Sem deixar de ser linguagem e ferramenta adequada às Naturais.

Mas o de que se esquece, em geral, é que a Matemática é uma criação do intelecto. E não vamos nem mesmo cair na soberba de dizer que é criação do intelecto humano, pois há bichos que sabem contar ou, ao menos, distinguir um único inimigo natural de um bando deles, para decidir se correm ou lutam. E não é a contagem a operação matemática mais antiga? Ou talvez possa-se-lhe opor, como candidata a esta honra, a relação comparativa, pois há outros bichos que medem o tamanho do inimigo, para decidir sua estratégia. Não importa de qual seja a honra, a Matemática é anterior ao conceito mesmo de Ciência, embora desfrute hoje, como membro honorário, deste título e dele colha as vantagens, como métodos estabelecidos, comunidades de prática e conseqüente respeitabilidade.

Caberia a ela, talvez com mais propriedade, o título de Arte, pois como qualquer outra dessas, permite a expressão criativa, demandando, para isto, desenvoltura em suas particulares técnicas, o que se obtém através de prática diligente e disciplinada. E não menos apropriado seria tratá-la por Cultura, resultado que é, se observada em seu conjunto, do trabalho cooperado de tantas mentes em eras e lugares tão bem distribuídos pela face do globo e pela duração dos séculos.

Este é o panorama que explica, já que justificar não é preciso, minha opção pelo estudo da Física e meu abandono da Eletrônica, do Jornalismo e da Computação. E é também este quadro o ponto de partida para a observação, investigação e conscientização nos planos sensoriais, emocionais, psicológicos e, quiçá, outros além. É inspiração, exemplo, motivação e é, especialmente, disciplina, aprendizado e trilha para essa busca.



Originalmente publicado em Outonos, número 31 (19 de fevereiro de 2004)