domingo, dezembro 05, 2004

Qualidades ocultas ou percepções dormentes?

Andava refletindo sobre a diferença entre ter o conhecimento de um fato e poder usufruí-lo em toda sua plenitude, quando senti o sol aquecendo-me o braço, ao passar por cima do muro em cujas sombras eu havia me sentado. Essa sensação lembrou-me de outra reflexão recente, sobre o embotamento das habilidades sensoriais a que estamos submetidos por uma vida insalubre e imersa em pressas e pressões, bloqueios e condicionamentos, vícios e fraquezas exploradas no melhor interesse de quem sabe como fazê-lo para seu próprio bem. Ou de quem nasceu ou foi alçado a uma posição em que, mesmo inconscientemente, o faz.

Esta é uma outra reflexão, como eu disse, e creio que muito profunda para o momento, dada a necessidade de análise de uma diversidade tão grande de aspectos que eu mal consigo conceber a apreensão de todos eles numa única visão global. Mas fica a possibilidade de explorarmos um destes aspectos, que tem muito a ver, também, com a questão inicial a que eu me propunha dedicar, já que aquele poder depende em parte, senão totalmente, do exercício da sensibilidade latente em nossa natureza animal.

Então, deixando de lado a definição, a natureza, as causas e as conseqüências dessas dormências sensoriais, quero tentar, aqui, jogar um pouquinho de luz sobre as pálpebras fechadas por um sistema educacional um tanto embrutecedor, que prepara indivíduos mais para a competição do que para a plenitude de ser humano. Começo por relembrar o que nos ensinam em algum momento do curso fundamental, acrescido de ornamentos e desconstruções, a título de exercícios para os “músculos do intelecto”.

Uma das fórmulas da Física mais decoradas no colégio é P = mg : o peso de um objeto é o produto de sua massa por uma dita aceleração da gravidade, enigmática como a queda do pão com a manteiga para baixo. A fórmula, em si é uma particularização da 2ª Lei de Newton: F = ma. Reescrevendo, ainda outra vez: o peso é uma força que se faz sentir por um objeto de massa m; a intensidade força sentida é proporcional ao valor da massa e ao valor da aceleração que se verifica – na ausência de outras forças – na velocidade do corpo.

Vamos tentar perceber isso de outra maneira: g = F/m; ou seja, o tal enigma é uma criação intelectual, a aceleração – a variação da velocidade, a famosa primeira derivada, intuída simultânea e independentemente por Gottfried Leibniz e pelo mesmo Isaac Newton. Este o fez justamente motivado pela variação da velocidade, pela busca frenética da definição da velocidade instantânea, outra criação ainda mais abstrata do intelecto. Sua necessidade de definir construções mentais vinha, muito provavelmente, de sua ligação com a alquimia e outras formas de ocultismo que praticava. Sim, um dos maiores nomes da história da ciência ocidental era um ocultista. Já Leibnitz pretendia resolver dificuldades matemáticas em não me lembro qual problema já abstraído de suas aplicações terrenas. Não que não fosse, ele também, um místico – seu trabalho de investigação filosófica foi, por bom tempo, mantido pela Sociedade Rosa-Cruz. À parte as discussões sobre a parternidade do Cálculo – este nome e a notação usual são devidos ao alemão –, Leibnitz ainda criticava Newton por postular a gravidade como "uma qualidade oculta ou efeito de um milagre", o que implicava a impossibilidade de racionalização de suas causas e origens. Os dois brigaram até a morte de Leibnitz, e Newton continuou atacando-o até a sua própria. Ambos usaram de influências políticas em suas formas mais baixas para se sobreporem um ao outro no meio acadêmico europeu.

Bom, a História é outra história. Voltemos ao mistério. A definição de aceleração é sugerida pela sua própria ausência, na 1ª Lei de Newton, a da inércia, segundo a qual um corpo permanece em movimento, a velocidade constante, na ausência de qualquer influência. Se há variação da velocidade, e esta é a aceleração, há influência de alguma força externa ao corpo. Pelo método experimental, concluiu-se que um corpo – cuja massa era considerada intrinsecamente constante – submetido a uma determinada força constante, sofria uma aceleração, também invariante, e o valor desta era diretamente proporcional ao da força e inversamente proporcional à massa do corpo.

Galileu já havia estabelecido, perto de um século antes, que dois corpos largados no espaço ao mesmo tempo, chegam ao solo também simultaneamente. Em verdade, suspeita-se que o famoso experimento na torre de Pisa tenha sido realizado antes dele, mas ele o repetiu sob diversas condições, como planos inclinados, objetos com maior ou menor atrito etc. Comparando esta famosa observação com as suas próprias – e diz a lenda que a iluminação veio da queda de uma maçã, enquanto meditava à sombra da macieira – Newton deduz: se a velocidade inicial dos dois corpos é a mesma e chegam ao mesmo tempo no solo, devem tê-lo atingido com a mesma velocidade final, ou seja, sofreram a mesma aceleração. E, prosseguindo: se a aceleração é a mesma e suas massas não o são, então a força exercida pela oculta qualidade natural chamada gravidade não é a mesma para cada corpo – a mesma gravidade produz efeitos de intensidades diferentes conforme o corpo em que atua!

Bom, não é tão incrível assim, e ele mesmo chegou à expressão da força exercida pela atração gravitacional entre dois corpos: F = G.M.m/d_. A força de atração gravitacional entre dois corpos quaisquer é o produto das massas e de uma constante G, experimentalmente determinada, divido pelo quadrado da distância entre os centros de massa dos corpos. Não vamos falar muito de centros de massa. Apenas que as mesmas relações valeriam se toda a massa de cada corpo estivesse concentrada num único ponto: este tal centro. Também não vamos falar de constantes empíricas, exceto para lembrar que em diversos experimentos (muitos mesmo), variando-se as outras quantidades, observou-se que havia uma proporcionalidade regida por um número, que pôde ser deduzido por cálculos tão simples como uma regra de três.

Daí, que se estamos falando de nosso maltratado planetinha e de objetos nas cercanias de sua superfície, a distância entre o centro de massa deste e o da Terra (o centro mesmo dela) varia muito pouco, e podemos sempre aproximar muito bem o cálculo substituindo o denominador pelo raio da Terra. A massa dela também é sempre a mesma, em qualquer questão desse tipo. Então temos uma parte da fórmula "aproximadamente" constante, GM/d_, que passamos a chamar "g". Observe que nas alturas atingidas por um avião, a distância ao centro da Terra já é bem maior do que na superfície. Ou seja, g é bem menor lá em cima, e é tanto mais fácil para o avião contrapor a força da gravidade quanto mais alto ele o fizer – por outro lado a atmosfera mais rarefeita dificulta o próprio efeito em que a engenharia do avião se baseia para realizar esta façanha.

Bom, tudo isso já vimos no colégio, certo? Porque este maluco, que nem mesmo exerce a Física como profissão, está falando disso?

O que deixamos de aprender, tanto na escola quanto em casa, e não só deixamos de aprender, mas entorpecemos mesmo – com hábitos supostamente resultantes do estado de desenvolvimento social e tecnológico em que nos encontramos –, é a percepção sensorial disso tudo e de muito mais. Apesar de decepcionante, é facilmente remediável. Algo que você pode fazer agora mesmo, sentado que, provavelmente, está numa confortável e ergonômica cadeira para um moderno escritório profissional ou caseiro.

Num corpo de conformação razoavelmente humana, um braço pesa menos do que uma perna. Ops. Normalmente, ninguém presta muita atenção ao uso dos termos que já sofreram anos de aculturação, mesmo quando o contexto é o da definição mesma deles. Um braço tem massa menor do que uma perna. Tem menos matéria que uma perna. E não vamos entrar na questão mais recente sobre a equivalência entre massa e energia. Um braço tem menos massa que uma perna. Menos ossos, menos músculos, menos gordura, menos sangue, menos água. Quero dizer que você tem dois "corpos experimentais" adequados para uma experiência sobre gravitação e, a melhor parte, dotados de mecanismos de percepção muito mais eficientes do que a que lhe poderia dar uma série de números a respeito das quedas de um projétil de fuzil e outro de canhão – os corpos da lenda da torre de Pisa. Bem, a lenda inspiraria, talvez, menos violência, se mencionasse uma uva e um melão. O caso é que é preciso prestar atenção nas impressões registradas por estes sutis mecanismos.

Outro detalhe importante desse arranjo experimental é que não haverá movimento, assim, eliminamos a inconveniência de tratar de um determinado aspecto – a força peso, nosso objeto de análise – enquanto outro – a aceleração – nos distrai a atenção.

Então, apenas feche os olhos... ops, ainda não, leia o parágrafo, memorize o caminho e depois siga-o de olhos fechados... Sente-se ereto na cadeira, recoste firme e confortavelmente no espaldar, feche os olhos e estenda um braço adiante, horizontalmente no ar, com os dedos relaxados, mas o punho também estendido, e mantenha-o assim por alguns segundos. Respire tranquilamente, não se canse. Sinta seu braço sendo puxado para baixo. Deixe-se dominar por esta sensação. Não pense, nem preste atenção a qualquer outra sensação, pelo tempo que for confortável. Volte a apoiá-lo na mesa, na cadeira ou na perna. Esqueça-se dele.

Se estiver no trabalho e tiver vergonha de ser visto fazendo macaquices, deixe para fazer em casa. Se tiver vergonha das pessoas com quem você mora, faça de madrugada, ou feche a porta. Mas vai ser mais legal se você convencer os presentes a fazer junto com você. É catártico.

Agora, afaste a cadeira da mesa, ou gire-a para outro lado, sente-se mais perto da beirada do assento, feche os olhos novamente e estenda uma perna horizontalmente no ar, estendida mas não necessariamente até a trava do joelho, somente até onde for confortável, sentado mesmo, e mantenha-a assim por alguns segundos. Respire tranquilamente, não se canse. Sinta sua perna sendo puxada para baixo. Deixe-se dominar por esta sensação. Não pense, nem preste atenção a qualquer outra sensação, pelo tempo que for confortável. Volte a apoiá-la no chão. Não será espantoso se esse tempo confortável for muito menor do que foi para o braço estendido. Não se impressione. Vamos entender claramente o porquê da diferença, assim que explorarmos um pouquinho mais nossas percepções.

Uma terceira vez. Só mais uma. Levante um braço e uma perna, ao mesmo tempo, horizontalmente no ar, completa e confortavelmente estendidos, sem chegar aos limites das respectivas juntas. Mantenha-os assim por alguns segundos. Respire tranquilamente, não se canse. Sinta ambos os membros sendo puxados para baixo. Você já dedicou alguns momentos a estar atento a cada uma destas sensações. Agora, atente para as duas simultaneamente ou, se preferir, alternadamente. Deixe-se dominar por elas. Não pense, detenha-se nestas sensações, pelo tempo que for confortável. Perceba a resistência que você tem que exercer para manter a posição dos membros. Resistência contra algo que os faz tender para baixo. Leitor/a, esta é a força da gravidade. Não apresento no sentido inverso pois ela já o/a conhece há muito tempo.

Há um outro detalhe, e talvez você queira repetir o experimento depois de ler este parágrafo. Se não há movimento nem aceleração, é porque há outra força, além do peso, atuando sobre seus membros, e esta é a sua própria força muscular. Note que a idéia do experimento é ficar atento na sensação de atração do braço pelo planeta abaixo de você e não na resistência que você exerce para manter o braço e a perna erguidos. Se repetir o experimento, perceba a diferença entre a sensação percebida no antebraço e aquela percebida no ombro; na perna, os pontos equivalentes serão a batata da perna e a parte alta da coxa.

O gato, grande e íntimo amigo da gravidade, atento, sente a atuação da força, quando não há solo sob suas patas, ele usa seus bem treinados músculos dorsais e sua coluna muito mais flexível que a nossa para virar-se de modo a sempre cair de pé. O judoca sabe que não adianta contrair os músculos se não há onde se apoiar, quando está no ar, arrebatado pelo oponente, e, ao invés de se assustar com o descontrole sobre a situação, se deixa cair relaxado, pois sabe que nenhuma tensão o ajudará a levitar. Ainda faz uso de suas boas relações com esta não tão oculta qualidade da natureza, para aplicar golpes de impulso e alavanca, quando é ele quem arrebata o oponente.

A engenharia se esforça, também, em realizar seus prodígios, mas por vezes, se depara com outras forças "ocultas", das quais não tem a simpatia. Tem surpresas com ventos, tremores de terra, acomodações do terreno.

Nós, comuns mortais, nos esquecemos da gravidade porque, para a maioria das situações cotidianas, já temos respostas prontas: sabemos ficar de pé e segurar o copo para que não caia, e mais, segurá-lo na posição correta, para que seu conteúdo não caia fora da boca. O lado ruim disso é que nos esquecemos, também, de que podemos, se e quando quisermos, prestar atenção a ela. E vamos fazendo isso com diversas sensações, deixando-as de lado, quando poderiam nos ajudar a tomar melhores decisões nas situações mais prosaicas, como relaxar os músculos que não precisam estar tensos em determinada circunstância, e também nas mais complexas, como vencer o medo de um trampolim alto ou de trepar numa goiabeira deliciosamente carregada.



Originalmente publicado em Outonos, número 36 (30 de abril de 2004)