Atentos
Sílvia e Marcelo vinham pela calçada larga, voltando da casa dos pais dela, a poucos quarteirões da dele, onde passariam a noite, embora os pais dela fizessem questão de pensar que eles pegariam o carro e ele a levaria para a casa dela, onde supostamente vivia, pacata e virgem, desde que brigaram, Sílvia e o pai, pela última vez, havia 12 anos. Conversavam sem traços de tensão, justamente sobre aqueles tempos de brigas pós-adolescentes, sobre a rebeldia e a caretice, sobre as incompatibilidades de gênios entre pais muito zelosos e filhos muito bem educados.
A noite, já não tão fria como no auge do inverno, mas extremamente opaca devido à má dispersão de poluentes nesta época do ano, mal exibia duas ou três estrelas mais brilhantes, e a lua minguante ainda não havia aparecido no horizonte. Os carros passavam em quantidade comum nas noites de fim de semana, como também era comum a ocupação da maioria deles: jovens inconseqüentes indo para bares e festas, adultos inconseqüentes levando parceiros recém-conhecidos para suas casas, famílias inconseqüentes voltando tarde das visitas aos avós das crianças.
Roberto ia em direção contrária à do casal, pela mesma calçada, saindo do metrô, em direção à sua própria casa, pouco antes da meia-noite, conforme havia planejado. Voltava do bar onde haviam se reunido alguns velhos amigos que há muito não conversavam, tendo tomado três canecas de cerveja - não mais do que julgara apropriado quando pensara no assunto à tarde. Os amigos saíram para dançar e, mesmo ante a insistência de duas moças, uma que fazia parte do grupo de amigos que se reencontrava, outra que viera convidada por um deles, ateve-se aos planos. Não que fosse obstinado ou que tivesse outro compromisso importante. Apenas lembrou-se de ter em mente os planos que havia feito, que não eram nada além de não se embebedar e dormir cedo, e dos porquês destes planos: evitar a ressaca, que com o passar dos anos tornava-se cada vez mais incômoda, quando ocorria; e evitar se envolver com uma mulher que o fizesse esquecer disso. E aquelas duas, qualquer uma delas, eram bem capazes disso.
O homem acompanhado vê Roberto chegando e analisa friamente: alto e esbelto, cabelos curtos mas já na hora de cortar, barba feita pela manhã muito cedo, vestido casualmente como quem fora ao cinema sozinho com intenção de assistir ao filme; como quem tivesse gostado do filme, mantinha um leve sorriso, sob os olhos bem abertos de quem acabara de tomar um café e passaria a noite escrevendo uma longa carta para uma namorada distante. Formou-se na imagem projetada por todas as glândulas do corpo de Marcelo em sua mente distraída a figura do rival muito potencial na conquista da presa cujos pais ele acabara de conquistar - acreditava que com muito esforço, sem saber que eles mal podiam esperar para ouvi-lo declarar o noivado. Afinal, pedir permissão para noivar era um costume antigo e eles sabiam disso. A respiração de Marcelo se acelera e, na primeira inspiração mais forte, o peito se eleva e os músculos dos braços se encrispam. As sobrancelhas se envergam, elevando-se nas laterais, como que abrindo espaço para a dilatação das narinas. Os ouvidos nem percebem que a namorada havia parado de falar sobre o pai. Os passos endurecem e pesam mais do que o de costume.
Seus caminhos se cruzariam sob o toldo da banca de jornais, fechada a horas, um pouco mais tarde do que o de costume, tão profunda fora a absorção do banqueiro Joaquim pelo romance encalhado que a editora não veio buscar. Seus caminhos se cruzariam exatamente ao lado do corpo do mendigo Jonas, enrolado em um velho cobertor quadriculado em padrão escocês, de cujas cores originais não sobravam mais do que tons de marrom acinzentado apenas levemente distintos uns dos outros, sob o toldo da banca de jornais.
Sílvia, também, viu Roberto poucos metros antes de chegarem à banca e decidiu, em décimos de segundo, que transaria com um homem daqueles, bastava que ele se aproximasse educadamente num café de livraria ou na saída de uma exposição de quadros... a bem da verdade, transaria mesmo que ele se esfregasse nela dentro do ônibus lotado que ela tomaria na segunda-feira seguinte. A brisa vinha de lá e ela sentiu, sobrepondo-se à doçura da dama-da-noite que havia no caminho, o cheiro de homem que, embora não tenha chegado a atingir a consciência de Marcelo, foi exatamente o que disparou nele a necessidade de observar o sujeito e pintar a figura e a personalidade que julgava sérias concorrentes às suas próprias. No instante em que ela decidiu, parou de repente, carimbando um enorme ponto de interrogação na testa de seu acompanhante, atado pelo braço direito ao seu esquerdo, virou para a direita e observou que aquela árvore enorme, no estacionamento da pizzaria fechada, já era gigante quando ela era criança e seus pais a levavam para comer pizza, junto com o rapazinho que, aos olhos deles, prometia ser um ótimo pretendente.
Percebendo que Marcelo mais vigiava o suposto rival do que ouvia sua história de infância, desistiu de contar que o garoto tido como pretendente está há 20 anos na cadeia, pelas violências cometidas contra seis pré-adolescentes do bairro, logo após chegar à maioridade. Preferiu informar que havia sido ele o seu professor em quase todas as práticas ligadas ao sexo, desde a escolha da música ambiente até a percepção, sem nada perguntar, de qual lado da cama o homem que ela acabasse de exaurir quereria dormir, entre outras menos declaráveis, nas quais ele próprio, Marcelo, era mais interessado. Este, ameaçado, continuava seguindo o frasco ambulante de feromônios, com os olhos quase saltando pelo canto esquerdo das órbitas, e, distraído pelo movimento de Jonas embaixo do cobertor, não percebeu o tremor que correu dos calcanhares à nuca de Sílvia, quando o inimigo passou por trás do casal parado. A mulher, aproveitando a bambeada nos joelhos, induziu a retomada do caminho, apoiando-se no braço do namorado e deslocando-o à esquerda, em direção às sombras do toldo da banca de jornais, em direção ao mendigo Jonas. Em direção à casa de Marcelo, onde ela agradeceria a sabedoria da Natureza por contrapor o estado de predisposição sexual ao de predisposição ao combate, transição que o namorado percorrera neste sentido e agora não dava mostras de voltar ao primeiro. Continuando a conversa sobre as relações familiares, tomaram uma dose de vinho do porto, muito lentamente, e ao fim dela, os olhos dele já não se agüentavam. Sua mente não quis discutir, e seu corpo aceitou pacificamente o anúncio de que Sílvia chamaria um táxi e iria para casa.
Roberto soube na hora em que passou por trás do casal parado, mas só se deu conta disto momentos depois, que ela havia forçado a parada para evitar o confronto na sombra da banca de jornais. Achou que teria sido por medo de assalto ou agressão, mas não se sentiu ofendido com isso, de tão incoerente com um mínimo nível de sensibilidade que anda a violência e o despropósito noticiados diariamente em todos os veículos de comunicação, alguns dos quais seriam exibidos naquela mesma banca de jornais pela manhã. Achou até delicado, ao invés de se agarrar e apoiar no namorado e cruzar olhares cheios de apreensão, parar para observar uma árvore, num local iluminado, próximo ao cruzamento onde duas ou três pessoas aguardavam o momento apropriado para atravessar a rua, evitando o encontro nas sombras. Virou a esquina, entrou em casa, banhou-se e dormiu, úmido e nu, após ler em voz alta dois sonetos de Vinícius.
Originalmente publicado em Outonos, número 42 (17 de setembro de 2004)
A noite, já não tão fria como no auge do inverno, mas extremamente opaca devido à má dispersão de poluentes nesta época do ano, mal exibia duas ou três estrelas mais brilhantes, e a lua minguante ainda não havia aparecido no horizonte. Os carros passavam em quantidade comum nas noites de fim de semana, como também era comum a ocupação da maioria deles: jovens inconseqüentes indo para bares e festas, adultos inconseqüentes levando parceiros recém-conhecidos para suas casas, famílias inconseqüentes voltando tarde das visitas aos avós das crianças.
Roberto ia em direção contrária à do casal, pela mesma calçada, saindo do metrô, em direção à sua própria casa, pouco antes da meia-noite, conforme havia planejado. Voltava do bar onde haviam se reunido alguns velhos amigos que há muito não conversavam, tendo tomado três canecas de cerveja - não mais do que julgara apropriado quando pensara no assunto à tarde. Os amigos saíram para dançar e, mesmo ante a insistência de duas moças, uma que fazia parte do grupo de amigos que se reencontrava, outra que viera convidada por um deles, ateve-se aos planos. Não que fosse obstinado ou que tivesse outro compromisso importante. Apenas lembrou-se de ter em mente os planos que havia feito, que não eram nada além de não se embebedar e dormir cedo, e dos porquês destes planos: evitar a ressaca, que com o passar dos anos tornava-se cada vez mais incômoda, quando ocorria; e evitar se envolver com uma mulher que o fizesse esquecer disso. E aquelas duas, qualquer uma delas, eram bem capazes disso.
O homem acompanhado vê Roberto chegando e analisa friamente: alto e esbelto, cabelos curtos mas já na hora de cortar, barba feita pela manhã muito cedo, vestido casualmente como quem fora ao cinema sozinho com intenção de assistir ao filme; como quem tivesse gostado do filme, mantinha um leve sorriso, sob os olhos bem abertos de quem acabara de tomar um café e passaria a noite escrevendo uma longa carta para uma namorada distante. Formou-se na imagem projetada por todas as glândulas do corpo de Marcelo em sua mente distraída a figura do rival muito potencial na conquista da presa cujos pais ele acabara de conquistar - acreditava que com muito esforço, sem saber que eles mal podiam esperar para ouvi-lo declarar o noivado. Afinal, pedir permissão para noivar era um costume antigo e eles sabiam disso. A respiração de Marcelo se acelera e, na primeira inspiração mais forte, o peito se eleva e os músculos dos braços se encrispam. As sobrancelhas se envergam, elevando-se nas laterais, como que abrindo espaço para a dilatação das narinas. Os ouvidos nem percebem que a namorada havia parado de falar sobre o pai. Os passos endurecem e pesam mais do que o de costume.
Seus caminhos se cruzariam sob o toldo da banca de jornais, fechada a horas, um pouco mais tarde do que o de costume, tão profunda fora a absorção do banqueiro Joaquim pelo romance encalhado que a editora não veio buscar. Seus caminhos se cruzariam exatamente ao lado do corpo do mendigo Jonas, enrolado em um velho cobertor quadriculado em padrão escocês, de cujas cores originais não sobravam mais do que tons de marrom acinzentado apenas levemente distintos uns dos outros, sob o toldo da banca de jornais.
Sílvia, também, viu Roberto poucos metros antes de chegarem à banca e decidiu, em décimos de segundo, que transaria com um homem daqueles, bastava que ele se aproximasse educadamente num café de livraria ou na saída de uma exposição de quadros... a bem da verdade, transaria mesmo que ele se esfregasse nela dentro do ônibus lotado que ela tomaria na segunda-feira seguinte. A brisa vinha de lá e ela sentiu, sobrepondo-se à doçura da dama-da-noite que havia no caminho, o cheiro de homem que, embora não tenha chegado a atingir a consciência de Marcelo, foi exatamente o que disparou nele a necessidade de observar o sujeito e pintar a figura e a personalidade que julgava sérias concorrentes às suas próprias. No instante em que ela decidiu, parou de repente, carimbando um enorme ponto de interrogação na testa de seu acompanhante, atado pelo braço direito ao seu esquerdo, virou para a direita e observou que aquela árvore enorme, no estacionamento da pizzaria fechada, já era gigante quando ela era criança e seus pais a levavam para comer pizza, junto com o rapazinho que, aos olhos deles, prometia ser um ótimo pretendente.
Percebendo que Marcelo mais vigiava o suposto rival do que ouvia sua história de infância, desistiu de contar que o garoto tido como pretendente está há 20 anos na cadeia, pelas violências cometidas contra seis pré-adolescentes do bairro, logo após chegar à maioridade. Preferiu informar que havia sido ele o seu professor em quase todas as práticas ligadas ao sexo, desde a escolha da música ambiente até a percepção, sem nada perguntar, de qual lado da cama o homem que ela acabasse de exaurir quereria dormir, entre outras menos declaráveis, nas quais ele próprio, Marcelo, era mais interessado. Este, ameaçado, continuava seguindo o frasco ambulante de feromônios, com os olhos quase saltando pelo canto esquerdo das órbitas, e, distraído pelo movimento de Jonas embaixo do cobertor, não percebeu o tremor que correu dos calcanhares à nuca de Sílvia, quando o inimigo passou por trás do casal parado. A mulher, aproveitando a bambeada nos joelhos, induziu a retomada do caminho, apoiando-se no braço do namorado e deslocando-o à esquerda, em direção às sombras do toldo da banca de jornais, em direção ao mendigo Jonas. Em direção à casa de Marcelo, onde ela agradeceria a sabedoria da Natureza por contrapor o estado de predisposição sexual ao de predisposição ao combate, transição que o namorado percorrera neste sentido e agora não dava mostras de voltar ao primeiro. Continuando a conversa sobre as relações familiares, tomaram uma dose de vinho do porto, muito lentamente, e ao fim dela, os olhos dele já não se agüentavam. Sua mente não quis discutir, e seu corpo aceitou pacificamente o anúncio de que Sílvia chamaria um táxi e iria para casa.
Roberto soube na hora em que passou por trás do casal parado, mas só se deu conta disto momentos depois, que ela havia forçado a parada para evitar o confronto na sombra da banca de jornais. Achou que teria sido por medo de assalto ou agressão, mas não se sentiu ofendido com isso, de tão incoerente com um mínimo nível de sensibilidade que anda a violência e o despropósito noticiados diariamente em todos os veículos de comunicação, alguns dos quais seriam exibidos naquela mesma banca de jornais pela manhã. Achou até delicado, ao invés de se agarrar e apoiar no namorado e cruzar olhares cheios de apreensão, parar para observar uma árvore, num local iluminado, próximo ao cruzamento onde duas ou três pessoas aguardavam o momento apropriado para atravessar a rua, evitando o encontro nas sombras. Virou a esquina, entrou em casa, banhou-se e dormiu, úmido e nu, após ler em voz alta dois sonetos de Vinícius.
Originalmente publicado em Outonos, número 42 (17 de setembro de 2004)

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