domingo, dezembro 05, 2004

Se tudo o que você tem é um martelo...

... todo problema se lhe parecerá uma questão de onde botar o prego. Isto é uma adaptação de um provérbio que eu achava que fosse de domínio popular, mas parece que é da autoria de um psicólogo norte-americano chamado Abraham Maslow. Digo uma adaptação porque, no original, seria "tudo lhe parecerá um prego".

Qualquer hora dessas, procurarei saber mais sobre ele. No momento, o que me interessa é que esta frase resume bem a impressão que me ficou guardada de "A Estrutura das Revoluções Científicas", do físico e filósofo Thomas Kuhn, no que se refere às fases recorrentes da história da ciência, e que cabe tão bem a muitos outros aspectos da jornada humana.

Para entender a análise do Kuhn, em seu livro, é necessário aumentar o nível de abstração, de modo a abarcar, no mesmo horizonte, o conjunto dos momentos históricos citados. Também para entender como ela se aplica à história humana é necessário este movimento, sem o qual continuar-se-á enxergando a pincelada e não a cena retratada. Seria como tentar ver o traçado de uma pista de corridas sem subir a bordo de um helicóptero - ou, claro, sem usar da capacidade de abstração espacial, após uma série de voltas no tal circuito.

Vale dizer que, sem a aceitação desta abstração desde o início, negar-se-á a priori o elemento central da análise, porque este é justamente a negação daquilo que não se pode ver. Por outro lado, não pretendo impor, apenas pelo paralelismo, a validade da análise - que o autor fundamenta tão bem - a uma outra realidade sobre a qual não tenho, eu, elementos de demonstração: faço apenas uma proposta, baseada em similaridades.

Em resumo: fazendo um paralelo entre a análise histórica de Kuhn - específica sobre a ciência - e a história humana de maneira mais geral, há sempre um modelo vigente, uma visão de mundo. Esta determina todos os procedimentos, as normas e padrões de comportamento, as relações das pessoas com as pessoas e com as coisas, aquilo que é admissível e aquilo que nem sequer é passível ou merecedor de consideração. Esta prerrogativa não é, de todo, um mal: baseados em um modelo estabelecido, podemos nos abster de inventar a roda a cada decisão que precisamos tomar, das mais prosaicas, do dia-a-dia de uma pessoa comum, até aquelas de cunho estratégico e que influenciarão o resto de sua vida. E, com isso, vamos conseguindo os pequenos sucessos e progressos que nos fazem sentir seres humanos válidos e valiosos.

Um exemplo nada prosaico, embora bastante recorrente, é a situação de um casal de classe média que pretende ter um filho. Eles vão considerar fatores como sua estabilidade financeira, sua maturidade emocional, a situação familiar de maneira mais ampla, verificando se os futuros avós e tios poderão lhes dar o apoio necessário, as perspectivas de carreira, os planos de viagens e as viradas de mesa profissionais que terão de ser postergados, a casa, o bairro e a cidade em que moram, os custos da higiene, da alimentação, do vestuário e da educação, enfim... mas qual é o casal dito normal que vai levar em conta os preceitos filosóficos e éticos de gente como a do Movimento de Extinção Humana Voluntária (há uma página em português, mas não tão completa), que prega a abstenção da procriação, em nome do retorno da sustentabilidade da vida sobre a Terra? Quero dizer, este movimento está fora do modelo vigente, então seus clamores nem serão considerados pelas pessoas que seguem o modelo vigente - tampouco por este autor aqui.

Outra boa utilidade, ainda mais interessante, da aderência das pessoas a um modelo é que ela permite a vida em comunidade. Com base nele é possível prever, com um respeitável grau de acerto, as ações e reações das pessoas às nossas próprias, estabelecer códigos éticos e legais razoáveis e, especialmente, pautar as escolhas da vida em função de objetivos comuns. Ainda que em muitos casos estes objetivos sejam egoístas, sendo eles os mesmos para quase todo mundo, forma-se um repertório de caminhos já trilhados que nos permite validar e corrigir, quando necessário, a nossa rota.

Um conceito fundamental por trás destas utilidades de um modelo, qualquer modelo, o vigente ou os antigos, é a inércia: um modelo estabelecido é difícil de ser movido, substituído e, mesmo, de ser alterado. Do contrário, não se teria estabelecido. Ele tem mecanismos de auto-manutenção com o intuito de preservar os valores em que se baseia, e que se provaram úteis e férteis, ao menos em um momento histórico.

O mecanismo mais óbvio de auto-preservação de um modelo é a recompensa pela conformidade: "siga-me e será feliz" - mas há uma sutileza, em letras miúdas, no rodapé do contrato: "quem define o que é felicidade é o próprio modelo". Afinal, quem diz que um cigano, ou um conquistador imperialista, se dá por feliz com a propriedade de uma casa confortável com chuveiro aquecido a gás? Outro mecanismo é uma certa elasticidade, de maneira que os novos problemas que vão surgindo possam ser enquadrados nos termos do modelo e resolvidos dentro de seus padrões, sem quebrá-los, ou dentro de novos padrões que sejam coerentes e consistentes com os existentes, ao menos os mais importantes. O modelo, enquanto entidade auto-preservadora, aceita mudanças em aspectos laterais e superficiais para evitar o abalo de seu âmago. Como definir, então, o que é um modelo, o que é uma mudança cosmética e o que é um ruptura?

Há, ainda, outros truques, como o da "exceção que confirma a regra": se um problema é pouco recorrente e a abertura de uma exceção é mais confortável do que uma mudança, assim será e ainda se tirará o proverbial proveito. Mas o golpe mais traiçoeiro é aquele de suprimir a possibilidade de se avaliar aquilo que não está previsto, devidamente controlado e subjugado pelo modelo. Esta obliteração se dá tanto pela ênfase nos aspectos permitidos - que por si só já evita que as mentes doutrinadas voltem sua atenção àqueles aspectos indesejados - quanto pela ridicularização e desautorização destes aspectos, baseadas nos valores que o próprio modelo pretende sustentar. Neste aspecto doutrinário é que reside o martelo de Maslow.

Certamente, o que define um modelo não é sua casca aparente, não são as regras de comportamento derivadas dele, mas talvez sejam os valores fundamentais em que se baseiam. Esta análise é muito instigante, talvez por causa, mesmo, de sua abrangência e profundidade. Por ora, nos ateremos ao paralelo com a estrutura proposta por Kuhn, adicionada, adiante, de outra análise histórica interessante.

As mudanças de modelos - mudanças de paradigma, nos termos de Kuhn, para as revoluções científicas - ocorrem quando o modelo vigente não suporta, através de mudanças suaves e pequenas expansões, uma série consistente de novas ocorrências. Em geral, isto não ocorre em modelos recentemente estabelecidos, já que estes ainda têm muito espaço para crescer. Fritjof Capra, em "O Ponto de Mutação", evidencia este caráter numa análise dos períodos de ascensão e queda das diversas civilizações dos últimos milênios, indicando elementos que mostram como surge um novo paradigma cultural, como ele floresce, devido tanto a necessidade de trazer para dentro de si aqueles valores do paradigma anterior que sejam julgados interessantes, quanto ao novo espectro de possibilidades que se abre diante dele.

O que acontece, na análise de Capra, citando muitas vezes Arnold Toynbee, é que este florescimento vai perdendo seu ímpeto inicial, conforme os espaços vão sendo preenchidos. E toda a estrutura que se formou começa a apresentar rigidez ante a possíveis inovações. Há diversos aspectos comuns nas crises finais de várias civilizações: aumento de criminalidade, desequilíbrio social, problemas mentais e emocionais, estagnação cultural, sobrevalorização da busca espiritual. Não é preciso ser bidu, nem mesmo ter lido o livro, para imaginar que ele sugere que estamos num período destes.

Esta análise histórica geral coincide em, pelo menos, dois aspectos importantes da análise epistemológica de Kuhn: a importância dos valores fundamentais do modelo vigente e o banimento das questões que são intratáveis por ele, ainda que nem sempre de maneira obstinada (cabeça-dura), mas sim ingênua e bem intencionada. Durante o florescimento do modelo, tem-se a impressão de que tudo pode ser resolvido sem ruptura, procedendo-se por vias evolutivas suaves, e que o crescimento de sua abrangência não tem limite, até a compreensão final de todos os aspectos da realidade. Este otimismo exacerba a internalização dos valores subjacentes, inibindo o questionamento deles.

Kuhn mostra como, na história da ciência, algumas questões foram sumariamente desautorizadas por simplesmente não caberem no paradigma vigente em cada época. Capra toma apenas o atual e vai mais além, em sua análise: partindo da ciência, ele correlaciona os valores atualmente subjacentes, enfatizando o caráter reducionista de nossas análises, a necessidade imperiosa de domínio humano sobre a natureza, a propriedade e o crescimento ilimitado, cada um destes aplicado aos vários campos do conhecimento e, também, da cultura.

Ora, é fácil entender que o crescimento ilimitado é uma ilusão, enquanto vivermos confinados neste planeta, que é finito em extensão, em quantidade de matéria disponível e de energia extraível - toda ela recebida do Sol e posta à disposição por diversos processos naturais: a fotossíntese que nos dá alimento e lenha, a cadeia alimentar que, associada aos eventos geológicos nos deu o petróleo, além da tração animal e ainda mais alimentos, embora estes de custo mais e benefício menor, o ciclo das águas que leva água do mar até locais elevados onde podem ser represadas, o aquecimento das rochas e também do mar, que causam os ventos e as marés. Ainda assim, em quantidades finitas.

A invalidade do domínio humano sobre a natureza e da análise reducionista começa a ser percebida em várias atividades: na ecologia, já há a percepção clara de que as reservas ecológicas absolutamente despovoadas não são, em absoluto, eternamente sustentáveis: a natureza muda como um todo, e se uma área de mata virgem for isolada por cercas e muros, ainda assim o clima continuará sendo afetado não só pela atividade humana mas por todas os outros processos em curso inexorável na natureza; a chuva continuará depositando naquele solo partículas que foram suspensas na atmosfera também pela natureza como um todo; a poluição da cidade vizinha, a migração de animais, a caça deles nas redondezas, tudo isso afeta a pretensa reserva. Isso traz outra questão de fundo: o ser humano não é externo ao ecossistema, nem superior a ele - é parte integrante dele! O reducionismo também enfrenta percalços nas modernas ciências naturais da física, da subatômica até a astronômica, e na biologia, das células à saúde fisiológica de nossos complexos organismos.

Porém, mais sutil é a questão da propriedade. E não é a questão do privado e do coletivo, como propõe (propunha?) o comunismo, porque ter em coletividade impõe uma nova pressão - abster-se do acúmulo e da superioridade, sem eliminar a existência destas possibilidades. E sua sutileza deve-se, talvez, ao fato da propriedade ser a base da recompensa que o modelo vigente oferece. Ela é a motivação do crescimento ilimitado: criar mais bens e valores para serem possuídos pelos recompensados mantenedores do sistema. Ela é a motivação da superioridade humana, em relação à natureza: eu tenho esta terra e esta árvore, já que eles nem sabem o que é ter ou ser tido; e da superioridade de um ser humano em relação a outro: eu tenho, você não tem - e aqui cabe uma menção à dominação masculina sobre a mulher, ainda que esta seja baseada em fatores mais profundos do que a propriedade de um órgão erétil. Esta é, ainda, a motivação de tantas guerras - por terras e suas riquezas minerais; de tantas culpas - tantos passando fome e você aí tomando cerveja - e castrações - esse brinquedo tem dono, não mexa; de tanta violência - por mais que eu me esforce, nunca terei, então mãos ao alto; tanta corrupção - há tanto rolando, se eu pegar um pouquinho, ninguém vai perceber.



Originalmente publicado em Outonos, número 39 (12 de junho de 2004)