Rosa de Vênus
Duas da tarde. Almoço sozinho, semi-nu, na varanda.
Toca a campainha, toca a mim vestir-me e atender.
É a vizinha, para completar o serviço do entregador,
que viera ao meio-dia, tendo encontrado a casa vazia.
FloresOnLine, sinal dos tempos do romance eletrônico,
Diz a caixa, com nota-fiscal sem valor, para presente.
Rosa solitária, ainda em botão, os espinhos cortados
Ou, quem sabe, por obra da engenharia genética, ausentes.
Água no tubinho de plástico ajustado ao local do corte
e tocos de pequenos caules, tenros e verdes, de enfeite.
"Se assim lhe parece, Vênus", assina a mensagem
Cheia de veneno, sinal que os tempos não mudam tanto
Vênus estava próximo da Lua de ontem, quase crescente,
Apesar de muito maior, mais quente e mais brilhante,
Aparece minúsculo, quase uma estrela, de tão distante
E, no entanto, faz questão de fazer-se presente.
Mas a Lua crescente, gestanto a próxima Lua nova
Tem-me proporcionado plenas tardes de bem viver.
Enquanto Vênus, com sua atmosfera tórrida e tóxica,
Permanece no céu a nos lembrar da história passada
E a tentar, incerto, confundir incautos astronautas
Porventura ofuscados pelo brilho de outros anos-luz.
Apegado ao que foi, Vênus tenta ser o que não é mais
Vivendo na Terra apenas aparências de tempos atrás.
Sem poder nem querer perceber a semente em seu ser
Alimenta em silencioso afã, o broto que será árvore,
Que não pode ser impedida de dar seus esperados frutos.
Doces ou amargos, terá sido obra e graça do Universo.
Cego, ignora que o Universo confirma o que se pensa,
O que, ainda que não se perceba, pela cabeça lhe passa
Crendo-se onipotente e apartado do resto do Universo,
Permanece preso ao que já sabe, lutando para manter
A coerência irreal onde possa se manter por um tempo,
Ignorando o que há para saber agora e para viver.
E para não dizer que não falei das flores...
Como pode uma empresa prestar-se a um tal emprego
Eximindo-se da responsabilidade cúmplice do pior cego.
Como quem come um tomate esquecendo-se, ingrato, da chuva
E fingindo ignorar quanto agrotóxico terá maculado a terra,
Intoxicado o homem da terra e concentrado a renda da Terra.
Como quem saboreia o vinho sem perceber em seu ato a uva.
Toca a campainha, toca a mim vestir-me e atender.
É a vizinha, para completar o serviço do entregador,
que viera ao meio-dia, tendo encontrado a casa vazia.
FloresOnLine, sinal dos tempos do romance eletrônico,
Diz a caixa, com nota-fiscal sem valor, para presente.
Rosa solitária, ainda em botão, os espinhos cortados
Ou, quem sabe, por obra da engenharia genética, ausentes.
Água no tubinho de plástico ajustado ao local do corte
e tocos de pequenos caules, tenros e verdes, de enfeite.
"Se assim lhe parece, Vênus", assina a mensagem
Cheia de veneno, sinal que os tempos não mudam tanto
Vênus estava próximo da Lua de ontem, quase crescente,
Apesar de muito maior, mais quente e mais brilhante,
Aparece minúsculo, quase uma estrela, de tão distante
E, no entanto, faz questão de fazer-se presente.
Mas a Lua crescente, gestanto a próxima Lua nova
Tem-me proporcionado plenas tardes de bem viver.
Enquanto Vênus, com sua atmosfera tórrida e tóxica,
Permanece no céu a nos lembrar da história passada
E a tentar, incerto, confundir incautos astronautas
Porventura ofuscados pelo brilho de outros anos-luz.
Apegado ao que foi, Vênus tenta ser o que não é mais
Vivendo na Terra apenas aparências de tempos atrás.
Sem poder nem querer perceber a semente em seu ser
Alimenta em silencioso afã, o broto que será árvore,
Que não pode ser impedida de dar seus esperados frutos.
Doces ou amargos, terá sido obra e graça do Universo.
Cego, ignora que o Universo confirma o que se pensa,
O que, ainda que não se perceba, pela cabeça lhe passa
Crendo-se onipotente e apartado do resto do Universo,
Permanece preso ao que já sabe, lutando para manter
A coerência irreal onde possa se manter por um tempo,
Ignorando o que há para saber agora e para viver.
E para não dizer que não falei das flores...
Como pode uma empresa prestar-se a um tal emprego
Eximindo-se da responsabilidade cúmplice do pior cego.
Como quem come um tomate esquecendo-se, ingrato, da chuva
E fingindo ignorar quanto agrotóxico terá maculado a terra,
Intoxicado o homem da terra e concentrado a renda da Terra.
Como quem saboreia o vinho sem perceber em seu ato a uva.

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