sexta-feira, novembro 09, 2007

Pssat antigo

23:40h. Todos os outros dormem. Olhei o relógio e lembrei do Passat branco, placas UK 2340. Meu pai comprou do espólio do pai dele. Eu tinha uns 12 anos e achava que quando fosse adulto teria um Passat. Daqueles, daquela época, de quando as placas tinham apenas duas letras, não destes novos, de luxo. Eram modernos arrojados, possantes. Antes dele, tivéramos outro, amarelo canário - não me lembro das letras, mas os números das placas eram 3567.
Outros adultos do nosso círculo de amizades também tinham os seus. A amiga de infância da minha mãe, no interior, agora morava dois andares acima de nós e tinha um. Dois de seus filhos também tinham, cada um o seu, e viviam a contar vantagens sobre eles. Outra família, alguns andares abaixo, e que se tornou muito amiga da minha família pela convivência no prédio, também tinha. O carro foi uma sensação, em sua época.
Acho que só tenho um amigo que realizou o mesmo projeto - se é que era um projeto, e não apenas casualidade. O Passat dele era um cacareco: os parachoques tinham as ponteiras caídas, os faróis haviam sido roubados, as luzes trazeiras estavam queimadas, o piso corroído de ferrugem.
Às vezes, vejo um ou outro na rua. Na maioria bem cuidados.
Carros não me interessam mais, hoje.

quinta-feira, agosto 30, 2007

Mais informação do que eu preciso

Se não é o que eu vivi, não me diga, não me conte o que não sei e o que não passei
Se quer assunto, conte o que aprendeu com isso, mas o fato é seu e de quem mais for, não meu, não quero saber

quarta-feira, agosto 29, 2007

Da ridícula finitude das coisas

Algumas coisas perdem o sentido, antes mesmo de seu fim. Uma conversa, um exercício e até um descanso. Um carinho não deveria ter de sofrer desse mal. Há vidas, ou as houve, que assim terminaram, antes de se terem feito memórias. Outras coisas o retém, o sentido, digo, até ou mesmo além de seu fim, ainda que sejam elas próprias finitas.
E isso poderia ter sido o começo de uma declaração de amor, que estaria irremediavelmente perdida, se continuasse com "o meu amor é infinito blá blá bla". Ruim seria o tério sem fim, mas pior é o ridículo cômico da verdade emotiva.

Também ruim teria sido ser o início da ilusão do eterno tédio, levada ao chão pelo término de algo finito. Que também é ilusão aquela da fonte que não se há de secar.

(20nov2001)

Da série trechos de conversa fora do contexto

Ele disse que não estava nem aí (na época ainda não existia aquela musiquinha horrível que você até já tinha feito a si mesmo o favor de esquecer), mas sabia muito bem quem sofreria as conseqüências de uma eventual falha na execução do plano. Ela também me disse umas verdades sobre esse tipo de situação.

Ambos têm razão. Eu nem deveria ter deixado tudo isso sair do plano das idéias. Talvez nem devesse ter deixado a idéia florescer. Mas agora já estou nisso até o pescoço e estou achando bom. E não estou esperando resultado algum: risco nulo.

(04set2001)

quarta-feira, dezembro 21, 2005

Cultivar

Cada um faz a sua parte, cuidando de si e do mundo ao seu redor, não para o seu próprio bem, mas para o dos que vierem depois.

Cada um cuida de si, em aspectos físicos, psíquicos e espirituais, cultivando ao seu redor um ambiente saudável onde possa exercer e desenvolver suas habilidades culturais - inclusive as orgânicas, as que envolvem o corpo ou partes dele, e entre estas, especialmente, as artes. Não para seu próprio bem, mas para criar um ambiente rico, onde a prosperidade seja natural, decorrente e conseqüente.

Cuida também de contribuir para o estabelecimento de uma cultura - isto é, cultiva - uma cultura onde possa expressar cada vez mais habilmente, com o corpo e através de seus feitos e efeitos, a glória de viver.

terça-feira, novembro 08, 2005

Rosa de Vênus

Duas da tarde. Almoço sozinho, semi-nu, na varanda.
Toca a campainha, toca a mim vestir-me e atender.
É a vizinha, para completar o serviço do entregador,
que viera ao meio-dia, tendo encontrado a casa vazia.

FloresOnLine, sinal dos tempos do romance eletrônico,
Diz a caixa, com nota-fiscal sem valor, para presente.

Rosa solitária, ainda em botão, os espinhos cortados
Ou, quem sabe, por obra da engenharia genética, ausentes.
Água no tubinho de plástico ajustado ao local do corte
e tocos de pequenos caules, tenros e verdes, de enfeite.

"Se assim lhe parece, Vênus", assina a mensagem
Cheia de veneno, sinal que os tempos não mudam tanto

Vênus estava próximo da Lua de ontem, quase crescente,
Apesar de muito maior, mais quente e mais brilhante,
Aparece minúsculo, quase uma estrela, de tão distante
E, no entanto, faz questão de fazer-se presente.

Mas a Lua crescente, gestanto a próxima Lua nova
Tem-me proporcionado plenas tardes de bem viver.

Enquanto Vênus, com sua atmosfera tórrida e tóxica,
Permanece no céu a nos lembrar da história passada
E a tentar, incerto, confundir incautos astronautas
Porventura ofuscados pelo brilho de outros anos-luz.

Apegado ao que foi, Vênus tenta ser o que não é mais
Vivendo na Terra apenas aparências de tempos atrás.

Sem poder nem querer perceber a semente em seu ser
Alimenta em silencioso afã, o broto que será árvore,
Que não pode ser impedida de dar seus esperados frutos.
Doces ou amargos, terá sido obra e graça do Universo.

Cego, ignora que o Universo confirma o que se pensa,
O que, ainda que não se perceba, pela cabeça lhe passa

Crendo-se onipotente e apartado do resto do Universo,
Permanece preso ao que já sabe, lutando para manter
A coerência irreal onde possa se manter por um tempo,
Ignorando o que há para saber agora e para viver.

E para não dizer que não falei das flores...

Como pode uma empresa prestar-se a um tal emprego
Eximindo-se da responsabilidade cúmplice do pior cego.

Como quem come um tomate esquecendo-se, ingrato, da chuva
E fingindo ignorar quanto agrotóxico terá maculado a terra,
Intoxicado o homem da terra e concentrado a renda da Terra.
Como quem saboreia o vinho sem perceber em seu ato a uva.

O morcego e a lua

Fui buscar o dicionário na estante e, de passagem, cuidei de ver as gatas e as janelas. No nosso quarto, voa um morcego, errático, perdido, preso, voando por tempo mais longo e com manobras mais radicais do que aquelas com que costuma atravessar as copas e galhas das árvores. As gatas se agitam, nunca tinham visto um daqueles dentro de casa, embora já os conhecessem do jardim. Chilreiam excitadas, seguem-no a distância segura.

Levo alguns segundos olhando ao redor, com a cabeça vazia, até pegar a colcha do sofá, no escritório, pensando em apanhá-lo sem abatê-lo bruscamente. Lembrei de umas pescarias de moleque, quando agitávamos as varas de pescar, na estrada de volta para o sítio, para atraí-los. Uma vez derrubamos um: virou cobaia de curioso e, depois, defunto com lápide e cruz. Quando voltei, o de agora estava no corredor, e logo depois no outro quarto.

Ele procura insistentemente a direção da janela, que teve as venezianas fechadas, há coisa de 10 minutos. Provavelmente, tinha entrado por lá e agora sente a brisa fresca através das frestas, com seu cheiro de flor de limão-cravo, indicando seu ambiente de conforto. Fechei a porta do quarto, para evitar que voltasse a se perder pela casa, e as gatas ficaram conosco. Não, seu tonto, não entre no maleiro do armário, que esqueci aberto! Nem venha para cima de mim! Desviei-me dele usando a colcha como escudo, enquanto caminhava até a janela para abri-la. Foi o tempo de eu dar um passo de distância da janela e ele foi, quase se enredando no meu escudo de pano, depois de tanto desviar das parede e de mim. As gatas ficaram decepcionadas.

Pela janela aberta, vejo que a lua é nova, mas não muito - vai se deitar pouco depois da meia-noite.

domingo, dezembro 05, 2004

Unidade no todo

Tateando por entre estrelas
Tantas insignificantes per se
ainda que indispensáveis
na ordem da unidade total
Raras de brilho autêntico
genuínas sublimes transcendentes
Cada uma é única e é o todo

Atentos

Sílvia e Marcelo vinham pela calçada larga, voltando da casa dos pais dela, a poucos quarteirões da dele, onde passariam a noite, embora os pais dela fizessem questão de pensar que eles pegariam o carro e ele a levaria para a casa dela, onde supostamente vivia, pacata e virgem, desde que brigaram, Sílvia e o pai, pela última vez, havia 12 anos. Conversavam sem traços de tensão, justamente sobre aqueles tempos de brigas pós-adolescentes, sobre a rebeldia e a caretice, sobre as incompatibilidades de gênios entre pais muito zelosos e filhos muito bem educados.

A noite, já não tão fria como no auge do inverno, mas extremamente opaca devido à má dispersão de poluentes nesta época do ano, mal exibia duas ou três estrelas mais brilhantes, e a lua minguante ainda não havia aparecido no horizonte. Os carros passavam em quantidade comum nas noites de fim de semana, como também era comum a ocupação da maioria deles: jovens inconseqüentes indo para bares e festas, adultos inconseqüentes levando parceiros recém-conhecidos para suas casas, famílias inconseqüentes voltando tarde das visitas aos avós das crianças.

Roberto ia em direção contrária à do casal, pela mesma calçada, saindo do metrô, em direção à sua própria casa, pouco antes da meia-noite, conforme havia planejado. Voltava do bar onde haviam se reunido alguns velhos amigos que há muito não conversavam, tendo tomado três canecas de cerveja - não mais do que julgara apropriado quando pensara no assunto à tarde. Os amigos saíram para dançar e, mesmo ante a insistência de duas moças, uma que fazia parte do grupo de amigos que se reencontrava, outra que viera convidada por um deles, ateve-se aos planos. Não que fosse obstinado ou que tivesse outro compromisso importante. Apenas lembrou-se de ter em mente os planos que havia feito, que não eram nada além de não se embebedar e dormir cedo, e dos porquês destes planos: evitar a ressaca, que com o passar dos anos tornava-se cada vez mais incômoda, quando ocorria; e evitar se envolver com uma mulher que o fizesse esquecer disso. E aquelas duas, qualquer uma delas, eram bem capazes disso.

O homem acompanhado vê Roberto chegando e analisa friamente: alto e esbelto, cabelos curtos mas já na hora de cortar, barba feita pela manhã muito cedo, vestido casualmente como quem fora ao cinema sozinho com intenção de assistir ao filme; como quem tivesse gostado do filme, mantinha um leve sorriso, sob os olhos bem abertos de quem acabara de tomar um café e passaria a noite escrevendo uma longa carta para uma namorada distante. Formou-se na imagem projetada por todas as glândulas do corpo de Marcelo em sua mente distraída a figura do rival muito potencial na conquista da presa cujos pais ele acabara de conquistar - acreditava que com muito esforço, sem saber que eles mal podiam esperar para ouvi-lo declarar o noivado. Afinal, pedir permissão para noivar era um costume antigo e eles sabiam disso. A respiração de Marcelo se acelera e, na primeira inspiração mais forte, o peito se eleva e os músculos dos braços se encrispam. As sobrancelhas se envergam, elevando-se nas laterais, como que abrindo espaço para a dilatação das narinas. Os ouvidos nem percebem que a namorada havia parado de falar sobre o pai. Os passos endurecem e pesam mais do que o de costume.

Seus caminhos se cruzariam sob o toldo da banca de jornais, fechada a horas, um pouco mais tarde do que o de costume, tão profunda fora a absorção do banqueiro Joaquim pelo romance encalhado que a editora não veio buscar. Seus caminhos se cruzariam exatamente ao lado do corpo do mendigo Jonas, enrolado em um velho cobertor quadriculado em padrão escocês, de cujas cores originais não sobravam mais do que tons de marrom acinzentado apenas levemente distintos uns dos outros, sob o toldo da banca de jornais.

Sílvia, também, viu Roberto poucos metros antes de chegarem à banca e decidiu, em décimos de segundo, que transaria com um homem daqueles, bastava que ele se aproximasse educadamente num café de livraria ou na saída de uma exposição de quadros... a bem da verdade, transaria mesmo que ele se esfregasse nela dentro do ônibus lotado que ela tomaria na segunda-feira seguinte. A brisa vinha de lá e ela sentiu, sobrepondo-se à doçura da dama-da-noite que havia no caminho, o cheiro de homem que, embora não tenha chegado a atingir a consciência de Marcelo, foi exatamente o que disparou nele a necessidade de observar o sujeito e pintar a figura e a personalidade que julgava sérias concorrentes às suas próprias. No instante em que ela decidiu, parou de repente, carimbando um enorme ponto de interrogação na testa de seu acompanhante, atado pelo braço direito ao seu esquerdo, virou para a direita e observou que aquela árvore enorme, no estacionamento da pizzaria fechada, já era gigante quando ela era criança e seus pais a levavam para comer pizza, junto com o rapazinho que, aos olhos deles, prometia ser um ótimo pretendente.

Percebendo que Marcelo mais vigiava o suposto rival do que ouvia sua história de infância, desistiu de contar que o garoto tido como pretendente está há 20 anos na cadeia, pelas violências cometidas contra seis pré-adolescentes do bairro, logo após chegar à maioridade. Preferiu informar que havia sido ele o seu professor em quase todas as práticas ligadas ao sexo, desde a escolha da música ambiente até a percepção, sem nada perguntar, de qual lado da cama o homem que ela acabasse de exaurir quereria dormir, entre outras menos declaráveis, nas quais ele próprio, Marcelo, era mais interessado. Este, ameaçado, continuava seguindo o frasco ambulante de feromônios, com os olhos quase saltando pelo canto esquerdo das órbitas, e, distraído pelo movimento de Jonas embaixo do cobertor, não percebeu o tremor que correu dos calcanhares à nuca de Sílvia, quando o inimigo passou por trás do casal parado. A mulher, aproveitando a bambeada nos joelhos, induziu a retomada do caminho, apoiando-se no braço do namorado e deslocando-o à esquerda, em direção às sombras do toldo da banca de jornais, em direção ao mendigo Jonas. Em direção à casa de Marcelo, onde ela agradeceria a sabedoria da Natureza por contrapor o estado de predisposição sexual ao de predisposição ao combate, transição que o namorado percorrera neste sentido e agora não dava mostras de voltar ao primeiro. Continuando a conversa sobre as relações familiares, tomaram uma dose de vinho do porto, muito lentamente, e ao fim dela, os olhos dele já não se agüentavam. Sua mente não quis discutir, e seu corpo aceitou pacificamente o anúncio de que Sílvia chamaria um táxi e iria para casa.

Roberto soube na hora em que passou por trás do casal parado, mas só se deu conta disto momentos depois, que ela havia forçado a parada para evitar o confronto na sombra da banca de jornais. Achou que teria sido por medo de assalto ou agressão, mas não se sentiu ofendido com isso, de tão incoerente com um mínimo nível de sensibilidade que anda a violência e o despropósito noticiados diariamente em todos os veículos de comunicação, alguns dos quais seriam exibidos naquela mesma banca de jornais pela manhã. Achou até delicado, ao invés de se agarrar e apoiar no namorado e cruzar olhares cheios de apreensão, parar para observar uma árvore, num local iluminado, próximo ao cruzamento onde duas ou três pessoas aguardavam o momento apropriado para atravessar a rua, evitando o encontro nas sombras. Virou a esquina, entrou em casa, banhou-se e dormiu, úmido e nu, após ler em voz alta dois sonetos de Vinícius.



Originalmente publicado em Outonos, número 42 (17 de setembro de 2004)

Se tudo o que você tem é um martelo...

... todo problema se lhe parecerá uma questão de onde botar o prego. Isto é uma adaptação de um provérbio que eu achava que fosse de domínio popular, mas parece que é da autoria de um psicólogo norte-americano chamado Abraham Maslow. Digo uma adaptação porque, no original, seria "tudo lhe parecerá um prego".

Qualquer hora dessas, procurarei saber mais sobre ele. No momento, o que me interessa é que esta frase resume bem a impressão que me ficou guardada de "A Estrutura das Revoluções Científicas", do físico e filósofo Thomas Kuhn, no que se refere às fases recorrentes da história da ciência, e que cabe tão bem a muitos outros aspectos da jornada humana.

Para entender a análise do Kuhn, em seu livro, é necessário aumentar o nível de abstração, de modo a abarcar, no mesmo horizonte, o conjunto dos momentos históricos citados. Também para entender como ela se aplica à história humana é necessário este movimento, sem o qual continuar-se-á enxergando a pincelada e não a cena retratada. Seria como tentar ver o traçado de uma pista de corridas sem subir a bordo de um helicóptero - ou, claro, sem usar da capacidade de abstração espacial, após uma série de voltas no tal circuito.

Vale dizer que, sem a aceitação desta abstração desde o início, negar-se-á a priori o elemento central da análise, porque este é justamente a negação daquilo que não se pode ver. Por outro lado, não pretendo impor, apenas pelo paralelismo, a validade da análise - que o autor fundamenta tão bem - a uma outra realidade sobre a qual não tenho, eu, elementos de demonstração: faço apenas uma proposta, baseada em similaridades.

Em resumo: fazendo um paralelo entre a análise histórica de Kuhn - específica sobre a ciência - e a história humana de maneira mais geral, há sempre um modelo vigente, uma visão de mundo. Esta determina todos os procedimentos, as normas e padrões de comportamento, as relações das pessoas com as pessoas e com as coisas, aquilo que é admissível e aquilo que nem sequer é passível ou merecedor de consideração. Esta prerrogativa não é, de todo, um mal: baseados em um modelo estabelecido, podemos nos abster de inventar a roda a cada decisão que precisamos tomar, das mais prosaicas, do dia-a-dia de uma pessoa comum, até aquelas de cunho estratégico e que influenciarão o resto de sua vida. E, com isso, vamos conseguindo os pequenos sucessos e progressos que nos fazem sentir seres humanos válidos e valiosos.

Um exemplo nada prosaico, embora bastante recorrente, é a situação de um casal de classe média que pretende ter um filho. Eles vão considerar fatores como sua estabilidade financeira, sua maturidade emocional, a situação familiar de maneira mais ampla, verificando se os futuros avós e tios poderão lhes dar o apoio necessário, as perspectivas de carreira, os planos de viagens e as viradas de mesa profissionais que terão de ser postergados, a casa, o bairro e a cidade em que moram, os custos da higiene, da alimentação, do vestuário e da educação, enfim... mas qual é o casal dito normal que vai levar em conta os preceitos filosóficos e éticos de gente como a do Movimento de Extinção Humana Voluntária (há uma página em português, mas não tão completa), que prega a abstenção da procriação, em nome do retorno da sustentabilidade da vida sobre a Terra? Quero dizer, este movimento está fora do modelo vigente, então seus clamores nem serão considerados pelas pessoas que seguem o modelo vigente - tampouco por este autor aqui.

Outra boa utilidade, ainda mais interessante, da aderência das pessoas a um modelo é que ela permite a vida em comunidade. Com base nele é possível prever, com um respeitável grau de acerto, as ações e reações das pessoas às nossas próprias, estabelecer códigos éticos e legais razoáveis e, especialmente, pautar as escolhas da vida em função de objetivos comuns. Ainda que em muitos casos estes objetivos sejam egoístas, sendo eles os mesmos para quase todo mundo, forma-se um repertório de caminhos já trilhados que nos permite validar e corrigir, quando necessário, a nossa rota.

Um conceito fundamental por trás destas utilidades de um modelo, qualquer modelo, o vigente ou os antigos, é a inércia: um modelo estabelecido é difícil de ser movido, substituído e, mesmo, de ser alterado. Do contrário, não se teria estabelecido. Ele tem mecanismos de auto-manutenção com o intuito de preservar os valores em que se baseia, e que se provaram úteis e férteis, ao menos em um momento histórico.

O mecanismo mais óbvio de auto-preservação de um modelo é a recompensa pela conformidade: "siga-me e será feliz" - mas há uma sutileza, em letras miúdas, no rodapé do contrato: "quem define o que é felicidade é o próprio modelo". Afinal, quem diz que um cigano, ou um conquistador imperialista, se dá por feliz com a propriedade de uma casa confortável com chuveiro aquecido a gás? Outro mecanismo é uma certa elasticidade, de maneira que os novos problemas que vão surgindo possam ser enquadrados nos termos do modelo e resolvidos dentro de seus padrões, sem quebrá-los, ou dentro de novos padrões que sejam coerentes e consistentes com os existentes, ao menos os mais importantes. O modelo, enquanto entidade auto-preservadora, aceita mudanças em aspectos laterais e superficiais para evitar o abalo de seu âmago. Como definir, então, o que é um modelo, o que é uma mudança cosmética e o que é um ruptura?

Há, ainda, outros truques, como o da "exceção que confirma a regra": se um problema é pouco recorrente e a abertura de uma exceção é mais confortável do que uma mudança, assim será e ainda se tirará o proverbial proveito. Mas o golpe mais traiçoeiro é aquele de suprimir a possibilidade de se avaliar aquilo que não está previsto, devidamente controlado e subjugado pelo modelo. Esta obliteração se dá tanto pela ênfase nos aspectos permitidos - que por si só já evita que as mentes doutrinadas voltem sua atenção àqueles aspectos indesejados - quanto pela ridicularização e desautorização destes aspectos, baseadas nos valores que o próprio modelo pretende sustentar. Neste aspecto doutrinário é que reside o martelo de Maslow.

Certamente, o que define um modelo não é sua casca aparente, não são as regras de comportamento derivadas dele, mas talvez sejam os valores fundamentais em que se baseiam. Esta análise é muito instigante, talvez por causa, mesmo, de sua abrangência e profundidade. Por ora, nos ateremos ao paralelo com a estrutura proposta por Kuhn, adicionada, adiante, de outra análise histórica interessante.

As mudanças de modelos - mudanças de paradigma, nos termos de Kuhn, para as revoluções científicas - ocorrem quando o modelo vigente não suporta, através de mudanças suaves e pequenas expansões, uma série consistente de novas ocorrências. Em geral, isto não ocorre em modelos recentemente estabelecidos, já que estes ainda têm muito espaço para crescer. Fritjof Capra, em "O Ponto de Mutação", evidencia este caráter numa análise dos períodos de ascensão e queda das diversas civilizações dos últimos milênios, indicando elementos que mostram como surge um novo paradigma cultural, como ele floresce, devido tanto a necessidade de trazer para dentro de si aqueles valores do paradigma anterior que sejam julgados interessantes, quanto ao novo espectro de possibilidades que se abre diante dele.

O que acontece, na análise de Capra, citando muitas vezes Arnold Toynbee, é que este florescimento vai perdendo seu ímpeto inicial, conforme os espaços vão sendo preenchidos. E toda a estrutura que se formou começa a apresentar rigidez ante a possíveis inovações. Há diversos aspectos comuns nas crises finais de várias civilizações: aumento de criminalidade, desequilíbrio social, problemas mentais e emocionais, estagnação cultural, sobrevalorização da busca espiritual. Não é preciso ser bidu, nem mesmo ter lido o livro, para imaginar que ele sugere que estamos num período destes.

Esta análise histórica geral coincide em, pelo menos, dois aspectos importantes da análise epistemológica de Kuhn: a importância dos valores fundamentais do modelo vigente e o banimento das questões que são intratáveis por ele, ainda que nem sempre de maneira obstinada (cabeça-dura), mas sim ingênua e bem intencionada. Durante o florescimento do modelo, tem-se a impressão de que tudo pode ser resolvido sem ruptura, procedendo-se por vias evolutivas suaves, e que o crescimento de sua abrangência não tem limite, até a compreensão final de todos os aspectos da realidade. Este otimismo exacerba a internalização dos valores subjacentes, inibindo o questionamento deles.

Kuhn mostra como, na história da ciência, algumas questões foram sumariamente desautorizadas por simplesmente não caberem no paradigma vigente em cada época. Capra toma apenas o atual e vai mais além, em sua análise: partindo da ciência, ele correlaciona os valores atualmente subjacentes, enfatizando o caráter reducionista de nossas análises, a necessidade imperiosa de domínio humano sobre a natureza, a propriedade e o crescimento ilimitado, cada um destes aplicado aos vários campos do conhecimento e, também, da cultura.

Ora, é fácil entender que o crescimento ilimitado é uma ilusão, enquanto vivermos confinados neste planeta, que é finito em extensão, em quantidade de matéria disponível e de energia extraível - toda ela recebida do Sol e posta à disposição por diversos processos naturais: a fotossíntese que nos dá alimento e lenha, a cadeia alimentar que, associada aos eventos geológicos nos deu o petróleo, além da tração animal e ainda mais alimentos, embora estes de custo mais e benefício menor, o ciclo das águas que leva água do mar até locais elevados onde podem ser represadas, o aquecimento das rochas e também do mar, que causam os ventos e as marés. Ainda assim, em quantidades finitas.

A invalidade do domínio humano sobre a natureza e da análise reducionista começa a ser percebida em várias atividades: na ecologia, já há a percepção clara de que as reservas ecológicas absolutamente despovoadas não são, em absoluto, eternamente sustentáveis: a natureza muda como um todo, e se uma área de mata virgem for isolada por cercas e muros, ainda assim o clima continuará sendo afetado não só pela atividade humana mas por todas os outros processos em curso inexorável na natureza; a chuva continuará depositando naquele solo partículas que foram suspensas na atmosfera também pela natureza como um todo; a poluição da cidade vizinha, a migração de animais, a caça deles nas redondezas, tudo isso afeta a pretensa reserva. Isso traz outra questão de fundo: o ser humano não é externo ao ecossistema, nem superior a ele - é parte integrante dele! O reducionismo também enfrenta percalços nas modernas ciências naturais da física, da subatômica até a astronômica, e na biologia, das células à saúde fisiológica de nossos complexos organismos.

Porém, mais sutil é a questão da propriedade. E não é a questão do privado e do coletivo, como propõe (propunha?) o comunismo, porque ter em coletividade impõe uma nova pressão - abster-se do acúmulo e da superioridade, sem eliminar a existência destas possibilidades. E sua sutileza deve-se, talvez, ao fato da propriedade ser a base da recompensa que o modelo vigente oferece. Ela é a motivação do crescimento ilimitado: criar mais bens e valores para serem possuídos pelos recompensados mantenedores do sistema. Ela é a motivação da superioridade humana, em relação à natureza: eu tenho esta terra e esta árvore, já que eles nem sabem o que é ter ou ser tido; e da superioridade de um ser humano em relação a outro: eu tenho, você não tem - e aqui cabe uma menção à dominação masculina sobre a mulher, ainda que esta seja baseada em fatores mais profundos do que a propriedade de um órgão erétil. Esta é, ainda, a motivação de tantas guerras - por terras e suas riquezas minerais; de tantas culpas - tantos passando fome e você aí tomando cerveja - e castrações - esse brinquedo tem dono, não mexa; de tanta violência - por mais que eu me esforce, nunca terei, então mãos ao alto; tanta corrupção - há tanto rolando, se eu pegar um pouquinho, ninguém vai perceber.



Originalmente publicado em Outonos, número 39 (12 de junho de 2004)

Qualidades ocultas ou percepções dormentes?

Andava refletindo sobre a diferença entre ter o conhecimento de um fato e poder usufruí-lo em toda sua plenitude, quando senti o sol aquecendo-me o braço, ao passar por cima do muro em cujas sombras eu havia me sentado. Essa sensação lembrou-me de outra reflexão recente, sobre o embotamento das habilidades sensoriais a que estamos submetidos por uma vida insalubre e imersa em pressas e pressões, bloqueios e condicionamentos, vícios e fraquezas exploradas no melhor interesse de quem sabe como fazê-lo para seu próprio bem. Ou de quem nasceu ou foi alçado a uma posição em que, mesmo inconscientemente, o faz.

Esta é uma outra reflexão, como eu disse, e creio que muito profunda para o momento, dada a necessidade de análise de uma diversidade tão grande de aspectos que eu mal consigo conceber a apreensão de todos eles numa única visão global. Mas fica a possibilidade de explorarmos um destes aspectos, que tem muito a ver, também, com a questão inicial a que eu me propunha dedicar, já que aquele poder depende em parte, senão totalmente, do exercício da sensibilidade latente em nossa natureza animal.

Então, deixando de lado a definição, a natureza, as causas e as conseqüências dessas dormências sensoriais, quero tentar, aqui, jogar um pouquinho de luz sobre as pálpebras fechadas por um sistema educacional um tanto embrutecedor, que prepara indivíduos mais para a competição do que para a plenitude de ser humano. Começo por relembrar o que nos ensinam em algum momento do curso fundamental, acrescido de ornamentos e desconstruções, a título de exercícios para os “músculos do intelecto”.

Uma das fórmulas da Física mais decoradas no colégio é P = mg : o peso de um objeto é o produto de sua massa por uma dita aceleração da gravidade, enigmática como a queda do pão com a manteiga para baixo. A fórmula, em si é uma particularização da 2ª Lei de Newton: F = ma. Reescrevendo, ainda outra vez: o peso é uma força que se faz sentir por um objeto de massa m; a intensidade força sentida é proporcional ao valor da massa e ao valor da aceleração que se verifica – na ausência de outras forças – na velocidade do corpo.

Vamos tentar perceber isso de outra maneira: g = F/m; ou seja, o tal enigma é uma criação intelectual, a aceleração – a variação da velocidade, a famosa primeira derivada, intuída simultânea e independentemente por Gottfried Leibniz e pelo mesmo Isaac Newton. Este o fez justamente motivado pela variação da velocidade, pela busca frenética da definição da velocidade instantânea, outra criação ainda mais abstrata do intelecto. Sua necessidade de definir construções mentais vinha, muito provavelmente, de sua ligação com a alquimia e outras formas de ocultismo que praticava. Sim, um dos maiores nomes da história da ciência ocidental era um ocultista. Já Leibnitz pretendia resolver dificuldades matemáticas em não me lembro qual problema já abstraído de suas aplicações terrenas. Não que não fosse, ele também, um místico – seu trabalho de investigação filosófica foi, por bom tempo, mantido pela Sociedade Rosa-Cruz. À parte as discussões sobre a parternidade do Cálculo – este nome e a notação usual são devidos ao alemão –, Leibnitz ainda criticava Newton por postular a gravidade como "uma qualidade oculta ou efeito de um milagre", o que implicava a impossibilidade de racionalização de suas causas e origens. Os dois brigaram até a morte de Leibnitz, e Newton continuou atacando-o até a sua própria. Ambos usaram de influências políticas em suas formas mais baixas para se sobreporem um ao outro no meio acadêmico europeu.

Bom, a História é outra história. Voltemos ao mistério. A definição de aceleração é sugerida pela sua própria ausência, na 1ª Lei de Newton, a da inércia, segundo a qual um corpo permanece em movimento, a velocidade constante, na ausência de qualquer influência. Se há variação da velocidade, e esta é a aceleração, há influência de alguma força externa ao corpo. Pelo método experimental, concluiu-se que um corpo – cuja massa era considerada intrinsecamente constante – submetido a uma determinada força constante, sofria uma aceleração, também invariante, e o valor desta era diretamente proporcional ao da força e inversamente proporcional à massa do corpo.

Galileu já havia estabelecido, perto de um século antes, que dois corpos largados no espaço ao mesmo tempo, chegam ao solo também simultaneamente. Em verdade, suspeita-se que o famoso experimento na torre de Pisa tenha sido realizado antes dele, mas ele o repetiu sob diversas condições, como planos inclinados, objetos com maior ou menor atrito etc. Comparando esta famosa observação com as suas próprias – e diz a lenda que a iluminação veio da queda de uma maçã, enquanto meditava à sombra da macieira – Newton deduz: se a velocidade inicial dos dois corpos é a mesma e chegam ao mesmo tempo no solo, devem tê-lo atingido com a mesma velocidade final, ou seja, sofreram a mesma aceleração. E, prosseguindo: se a aceleração é a mesma e suas massas não o são, então a força exercida pela oculta qualidade natural chamada gravidade não é a mesma para cada corpo – a mesma gravidade produz efeitos de intensidades diferentes conforme o corpo em que atua!

Bom, não é tão incrível assim, e ele mesmo chegou à expressão da força exercida pela atração gravitacional entre dois corpos: F = G.M.m/d_. A força de atração gravitacional entre dois corpos quaisquer é o produto das massas e de uma constante G, experimentalmente determinada, divido pelo quadrado da distância entre os centros de massa dos corpos. Não vamos falar muito de centros de massa. Apenas que as mesmas relações valeriam se toda a massa de cada corpo estivesse concentrada num único ponto: este tal centro. Também não vamos falar de constantes empíricas, exceto para lembrar que em diversos experimentos (muitos mesmo), variando-se as outras quantidades, observou-se que havia uma proporcionalidade regida por um número, que pôde ser deduzido por cálculos tão simples como uma regra de três.

Daí, que se estamos falando de nosso maltratado planetinha e de objetos nas cercanias de sua superfície, a distância entre o centro de massa deste e o da Terra (o centro mesmo dela) varia muito pouco, e podemos sempre aproximar muito bem o cálculo substituindo o denominador pelo raio da Terra. A massa dela também é sempre a mesma, em qualquer questão desse tipo. Então temos uma parte da fórmula "aproximadamente" constante, GM/d_, que passamos a chamar "g". Observe que nas alturas atingidas por um avião, a distância ao centro da Terra já é bem maior do que na superfície. Ou seja, g é bem menor lá em cima, e é tanto mais fácil para o avião contrapor a força da gravidade quanto mais alto ele o fizer – por outro lado a atmosfera mais rarefeita dificulta o próprio efeito em que a engenharia do avião se baseia para realizar esta façanha.

Bom, tudo isso já vimos no colégio, certo? Porque este maluco, que nem mesmo exerce a Física como profissão, está falando disso?

O que deixamos de aprender, tanto na escola quanto em casa, e não só deixamos de aprender, mas entorpecemos mesmo – com hábitos supostamente resultantes do estado de desenvolvimento social e tecnológico em que nos encontramos –, é a percepção sensorial disso tudo e de muito mais. Apesar de decepcionante, é facilmente remediável. Algo que você pode fazer agora mesmo, sentado que, provavelmente, está numa confortável e ergonômica cadeira para um moderno escritório profissional ou caseiro.

Num corpo de conformação razoavelmente humana, um braço pesa menos do que uma perna. Ops. Normalmente, ninguém presta muita atenção ao uso dos termos que já sofreram anos de aculturação, mesmo quando o contexto é o da definição mesma deles. Um braço tem massa menor do que uma perna. Tem menos matéria que uma perna. E não vamos entrar na questão mais recente sobre a equivalência entre massa e energia. Um braço tem menos massa que uma perna. Menos ossos, menos músculos, menos gordura, menos sangue, menos água. Quero dizer que você tem dois "corpos experimentais" adequados para uma experiência sobre gravitação e, a melhor parte, dotados de mecanismos de percepção muito mais eficientes do que a que lhe poderia dar uma série de números a respeito das quedas de um projétil de fuzil e outro de canhão – os corpos da lenda da torre de Pisa. Bem, a lenda inspiraria, talvez, menos violência, se mencionasse uma uva e um melão. O caso é que é preciso prestar atenção nas impressões registradas por estes sutis mecanismos.

Outro detalhe importante desse arranjo experimental é que não haverá movimento, assim, eliminamos a inconveniência de tratar de um determinado aspecto – a força peso, nosso objeto de análise – enquanto outro – a aceleração – nos distrai a atenção.

Então, apenas feche os olhos... ops, ainda não, leia o parágrafo, memorize o caminho e depois siga-o de olhos fechados... Sente-se ereto na cadeira, recoste firme e confortavelmente no espaldar, feche os olhos e estenda um braço adiante, horizontalmente no ar, com os dedos relaxados, mas o punho também estendido, e mantenha-o assim por alguns segundos. Respire tranquilamente, não se canse. Sinta seu braço sendo puxado para baixo. Deixe-se dominar por esta sensação. Não pense, nem preste atenção a qualquer outra sensação, pelo tempo que for confortável. Volte a apoiá-lo na mesa, na cadeira ou na perna. Esqueça-se dele.

Se estiver no trabalho e tiver vergonha de ser visto fazendo macaquices, deixe para fazer em casa. Se tiver vergonha das pessoas com quem você mora, faça de madrugada, ou feche a porta. Mas vai ser mais legal se você convencer os presentes a fazer junto com você. É catártico.

Agora, afaste a cadeira da mesa, ou gire-a para outro lado, sente-se mais perto da beirada do assento, feche os olhos novamente e estenda uma perna horizontalmente no ar, estendida mas não necessariamente até a trava do joelho, somente até onde for confortável, sentado mesmo, e mantenha-a assim por alguns segundos. Respire tranquilamente, não se canse. Sinta sua perna sendo puxada para baixo. Deixe-se dominar por esta sensação. Não pense, nem preste atenção a qualquer outra sensação, pelo tempo que for confortável. Volte a apoiá-la no chão. Não será espantoso se esse tempo confortável for muito menor do que foi para o braço estendido. Não se impressione. Vamos entender claramente o porquê da diferença, assim que explorarmos um pouquinho mais nossas percepções.

Uma terceira vez. Só mais uma. Levante um braço e uma perna, ao mesmo tempo, horizontalmente no ar, completa e confortavelmente estendidos, sem chegar aos limites das respectivas juntas. Mantenha-os assim por alguns segundos. Respire tranquilamente, não se canse. Sinta ambos os membros sendo puxados para baixo. Você já dedicou alguns momentos a estar atento a cada uma destas sensações. Agora, atente para as duas simultaneamente ou, se preferir, alternadamente. Deixe-se dominar por elas. Não pense, detenha-se nestas sensações, pelo tempo que for confortável. Perceba a resistência que você tem que exercer para manter a posição dos membros. Resistência contra algo que os faz tender para baixo. Leitor/a, esta é a força da gravidade. Não apresento no sentido inverso pois ela já o/a conhece há muito tempo.

Há um outro detalhe, e talvez você queira repetir o experimento depois de ler este parágrafo. Se não há movimento nem aceleração, é porque há outra força, além do peso, atuando sobre seus membros, e esta é a sua própria força muscular. Note que a idéia do experimento é ficar atento na sensação de atração do braço pelo planeta abaixo de você e não na resistência que você exerce para manter o braço e a perna erguidos. Se repetir o experimento, perceba a diferença entre a sensação percebida no antebraço e aquela percebida no ombro; na perna, os pontos equivalentes serão a batata da perna e a parte alta da coxa.

O gato, grande e íntimo amigo da gravidade, atento, sente a atuação da força, quando não há solo sob suas patas, ele usa seus bem treinados músculos dorsais e sua coluna muito mais flexível que a nossa para virar-se de modo a sempre cair de pé. O judoca sabe que não adianta contrair os músculos se não há onde se apoiar, quando está no ar, arrebatado pelo oponente, e, ao invés de se assustar com o descontrole sobre a situação, se deixa cair relaxado, pois sabe que nenhuma tensão o ajudará a levitar. Ainda faz uso de suas boas relações com esta não tão oculta qualidade da natureza, para aplicar golpes de impulso e alavanca, quando é ele quem arrebata o oponente.

A engenharia se esforça, também, em realizar seus prodígios, mas por vezes, se depara com outras forças "ocultas", das quais não tem a simpatia. Tem surpresas com ventos, tremores de terra, acomodações do terreno.

Nós, comuns mortais, nos esquecemos da gravidade porque, para a maioria das situações cotidianas, já temos respostas prontas: sabemos ficar de pé e segurar o copo para que não caia, e mais, segurá-lo na posição correta, para que seu conteúdo não caia fora da boca. O lado ruim disso é que nos esquecemos, também, de que podemos, se e quando quisermos, prestar atenção a ela. E vamos fazendo isso com diversas sensações, deixando-as de lado, quando poderiam nos ajudar a tomar melhores decisões nas situações mais prosaicas, como relaxar os músculos que não precisam estar tensos em determinada circunstância, e também nas mais complexas, como vencer o medo de um trampolim alto ou de trepar numa goiabeira deliciosamente carregada.



Originalmente publicado em Outonos, número 36 (30 de abril de 2004)

Tudo ao mesmo tempo. Agora.

Para observar o Sol sem ficar cego, é preciso saber ver. As reações termonucleares que lá ocorrem se repetem numa infinidade de pontos do Universo, pontos que vemos melhor a percorrer o céu limpo e seco, em noites nas quais a Lua, por capricho dos movimentos períódicos de distintas durações, está no lado da Terra oposto a nós. E, no entanto, aquelas reações têm importância especial para nós, porque a soma desses núcleos resulta em algo mais do que apenas um núcleo cujo peso é a soma dos pesos dos núcleos originais: desprende-se energia, já que a soma das quantidades dela que eram necessárias para manter a coesão interna em cada original é de sobra para manter a do novo núcleo.

Essa pequena contribuição, somada a outras tantas, viaja na forma de fóton, em todas as direções, e uma pequena parcela chega à Terra. Outra parcela, ainda menor, chega aos nossos olhos e descarrega sua energia em células sensíveis. Mas estas não são sensíveis a todos os fótons. Apenas àqueles que têm o montante de energia dentro de uma faixa determinada, correspondente à faixa de freqüências que dizemos visíveis. E assim vemos o que há onde olhamos. Estes pacotinhos de energia são necessários e suficientes para causar reações químicas nestas células e estas reações causam outras reações em outras células, e esse processo de reações em cadeia é o impulso nervoso que, tal como qualquer sinal, propaga-se, indo atingir o cérebro, onde é processado ou, equivalentemente, dispara mais reações, de naturezas diversas porque diversas são as naturezas das células
e das redes delas que são sensibilizadas pelos sinais. E então, depois de olhar e ver, dá-se o milagre: enxergamos.

Vemos a chuva cair e a água escorrer nas mais variadas rotas e velocidades, as quais poderíamos, em princípio, calcular e prever, bastando apenas que conhecêssemos a posição e a velocidade de cada partícula, tanto da água quanto da terra que lhe serve de leito ou obstáculo. Mas olhando para a água, enxergamos não apenas corredeiras e redemoinhos, mas uma outra infinidade de caminhos pelos quais segue a água. Alguns desses caminhos são através do solo, quando a urbanização não o impede. Outros são pelo ar mesmo, quando o chão está quente e sentimos o cheiro da chuva, na terra, no asfalto ou no concreto. De uma forma ou de outra, uma pequena parcela dessa água não volta para oceanos em cujas ondas, causadas por uma conjunção de fatores não intencionais tão diversos como os movimentos tectônicos, a posição dos astros nas suas órbitas caprichosas, os ventos, e quem dirá que a lista se encerra em algum momento, em cujas ondas nos deixamos escorregar em jacaré até o capote perto da praia, com os cabelos cheios de areia. Parte vai para represas e lençóis freáticos, que facilitam nossa vida em comunidade. Mas ainda há outra parte que, toda pulverizada, vai parar nos tecidos celulares das plantas que nos darão frutos e em nossos próprios tecidos, não por acaso também celulares, tecidos tramados com os minerais e moléculas destes frutos, com o oxigênio do ar que sustenta o vôo de pássaros e aviões, e com outra parcela da água, em processos bioquímicos que são parte da definição material de vida.

Estes intrincados processos têm um delicado equilíbrio dinâmico, constituído este também pela simbiose de diversos outros processos dinamicamente equilibrados em escalas menores. E fatos há que nos fazem supor que estas redes de processos não sejam intencionais, não tenham sido escritas - não nesse nível de concretização - por um Deus, seja qual for o nome que Lhe é dado - ainda que toda essa maneira de ver não se oponha nem pressuponha uma Tal existência e intencionalidade em níveis mais sutis. Estes fatos são os numerosos exemplos em que o equilíbrio, uma vez quebrado, volta a se fazer presente, em outra forma, com outras condições e processos, como quando algumas espécies de seres vivos se extinguem e outras surgem - não necessariamente como evolução das anteriores, mas apenas como agentes e pacientes, necessários e dependentes, de um novo equilíbrio.

Para que as Ciências Naturais senão para nos trazer à consciência a nossa
parte integrante nestes e em muitos outros processos? Senão para nos
permitir enxergar aquilo que devemos ver? O que dizer, ainda, da
Matemática? Esta é, ao mesmo tempo, a linguagem que permite expressar mais precisamente as teorias das Ciências Naturais, a ferramenta que permite a investigação científica e, não raro, a induz.

Aqui, vamos questionar uma falácia corrente, que chega a ser uma injustiça. A Matemática recebeu, há muito, o honorável título de Ciência, por seus métodos rigorosos de trabalho e pelas teorias altamente consistentes que produz - ainda que ela própria contenha, em seu corpo, a demonstração de que nenhuma teoria é inteiramente consistente, se não há mínimas afirmações a priori, ou postulados; este é, de maneira superficial, o chamado Teorema de Gödel. E mais, a inquestionabilidade das afirmações que produz rendeu-lhe a pecha de Exata. Ciência Exata. Sem deixar de ser linguagem e ferramenta adequada às Naturais.

Mas o de que se esquece, em geral, é que a Matemática é uma criação do intelecto. E não vamos nem mesmo cair na soberba de dizer que é criação do intelecto humano, pois há bichos que sabem contar ou, ao menos, distinguir um único inimigo natural de um bando deles, para decidir se correm ou lutam. E não é a contagem a operação matemática mais antiga? Ou talvez possa-se-lhe opor, como candidata a esta honra, a relação comparativa, pois há outros bichos que medem o tamanho do inimigo, para decidir sua estratégia. Não importa de qual seja a honra, a Matemática é anterior ao conceito mesmo de Ciência, embora desfrute hoje, como membro honorário, deste título e dele colha as vantagens, como métodos estabelecidos, comunidades de prática e conseqüente respeitabilidade.

Caberia a ela, talvez com mais propriedade, o título de Arte, pois como qualquer outra dessas, permite a expressão criativa, demandando, para isto, desenvoltura em suas particulares técnicas, o que se obtém através de prática diligente e disciplinada. E não menos apropriado seria tratá-la por Cultura, resultado que é, se observada em seu conjunto, do trabalho cooperado de tantas mentes em eras e lugares tão bem distribuídos pela face do globo e pela duração dos séculos.

Este é o panorama que explica, já que justificar não é preciso, minha opção pelo estudo da Física e meu abandono da Eletrônica, do Jornalismo e da Computação. E é também este quadro o ponto de partida para a observação, investigação e conscientização nos planos sensoriais, emocionais, psicológicos e, quiçá, outros além. É inspiração, exemplo, motivação e é, especialmente, disciplina, aprendizado e trilha para essa busca.



Originalmente publicado em Outonos, número 31 (19 de fevereiro de 2004)

Ódio mortal

Aquele romance, decididamente, fora um retrocesso em sua vida, ela não tinha mais a menor dúvida sobre isso. E pior que o fora no curto espaço de dois meses. Acabara com o auto-contentamento arduamente conseguido a custo de muita terapia, ou seja, tempo e dinheiro. E acabara ali mesmo, naquele vagão subterrâneo, publicamente, sem o menor pudor.

Nem queria mais pensar nisso, batucando com o anel no isqueiro metálico dentro do bolso largo, observava o vai e vem de toda aquela gente no metrô, faces sem alegria nem vontade. Tudo o que queria era chegar em casa logo, jogar-se na cama, por sobre a colcha mesmo, e ficar a olhar o teto até furá-lo de tédio, sensação que já sentia voltar-lhe a dominar a alma - não que em algum momento ele a tivesse abandonado, não: sempre a habitara, perene, mas escondia sua face tão expressiva quanto estas do vagão nas sombras e se fortalecia nesses momentos difíceis em que se deve tomar uma decisão, colocá-la em prática e arcar com suas conseqüências.

Mas não seria assim tão simples o seu domingo mal começado, só cama e televisão, pizza e refrigerante. Até sabia que o telefone tocaria assim que entrasse em casa, para alguma fofoca ou conversa sem importância, que o porteiro ensebado, fútil e enxerido perguntaria pelo namorado - este ridículo dava conversa para qualquer um que lhe puxasse o saco, bolas: o tal do porteiro já tinha até cadeira reservada no casamento! Essas coisas faziam parte do tédio que ela bem conhecia, eram justamente o que o tornava mais tedioso - convenções, cordialidades e bons-dias que sentia-se obrigada distribuir mesmo que não quisesse. Não, isso era o de menos. Porque ela nem se lembrava do compromisso assumido para hoje. Foi apenas ao ouvir o recado na secretária eletrônica - sabia que os italianos dizem secretaria, pois a máquina é o lugar onde se deixam recados, e não uma pessoa? - sua mente, embora embebida e afogada em tédio, ainda tinha de peralta o suficiente para se permitir artifícios de fuga banais e rasos como esse, evitando dar atenção à angústia que começava a lhe oprimir. Ela gostava de poder fazer isso. De sabê-lo. Era um saber antigo, que ela tinha como certo e útil, mas certamente efêmero. Por outro lado, o que ela menos queria era pensar de verdade, então não se fazia de difícil a si mesma.

Mas o recado na secretária! Olha o relógio - e daí que horas são? Não há referência de tempo na mensagem da irmã, o relógio da secretária pisca desde a primeira falha na energia elétrica - você arruma o da sua? - e ela não tem, mesmo, escolha. Deve sair imediatamente. O coração bate. Ainda bem que sim, mas a gente só percebe quando bate oprimido pela pressa ou pelo medo. Porque quando era pelo tédio de agora há pouco, seu bater é um sopro débil e tísico que mal se faz presente. Procura a chave do carro, demora para encontrá-la na sacola junto com o livro que deveria ter devolvido ao desgraçado ontem, mas inventaram de sair à pé, preferia não carregar o incômodo, mas agora bem acha que poderia ter levado para esquecê-lo em qualquer canto de bar ou da condução mesmo.

Desce correndo pelas escadas, preferindo a ralada de cotovelo na parede chapiscada do que a impaciência da espera do elevador. O cheiro forte de tinta fresca na garagem a deixa tonta, a vaga é apertada, pronto, a calça nova agora tinha uma faixa amarela e outra preta, na lateral da coxa esquerda. Bom, fora presente do maldito, não iria durar muito mesmo. Mais uma: pouca gasolina no tanque. Inevitável parar para abastacer. Ótima oportunidade para descobrir o estouro no limite do cartão de crédito e errar o preenchimento da última folha do talão de cheques. Bom, o frentista a reconheceu do dia-a-dia e, observando seu estado, sugeriu-lhe que passasse amanhã cedinho - antes de a patroa dele chegar, que ela era casca de ferida. Promessa feita.

Mas por que, raios, eles tinham que arrumar um rancho de pesca táo longe? Céus?! Por que um rancho de pesca?! Que tédio! Mas também, que boa idéia essa de encher a cara na véspera. Música. Com isso chegaria mais cedo, em sua vaga impressão do passar do tempo. Era isso o de que precisava para se distrair da distância e da contrariedade que sentia por esse passeio estúpido que a sobrinha mimada havia escolhido para festejo de aniversário. O pior é que, além de mimada pela mãe e pela avó, o era ainda pelo mesmo sujeito sem valor que lhe embebedara para suavizar-lhe as reações, que sabia que de outra forma seriam coléricas, e ainda esperou que estivessem num lugar público e movimentado, covarde filho de uma mula manca. Odiou-o tanto que enfiou o próprio carro, acelerado no limite do curso do pedal, debaixo da carreta de areia que seguia a passo de lesma pela pista da direita.




(Fevereiro 2004)

A melhor parte

E o gozo nem é a melhor parte, tão intensa quanto efêmera, e pontua finalmente aquilo que há de mais perfeito, os movimentos, o estar dentro, o prazer que se dá, o pensamento em busca da próxima troca de posição, do melhor jeito de conduzi-la sem solavancos, ou percebendo qual o carinho que as mãos, quem sabe os pés, vão proporcionar, enquanto se curte os recebidos em troca, ou tantas vezes em sinal de pedido daquilo que se quer e tantas vezes não é nada disso, apenas os espasmos reflexos do que está acontecendo em outra parte do corpo, dos corpos, visto por olhos que não só vêem, ah! que doces pinturas, mas muito acariciam e ainda são acariciados por imagens que só fazem querer ver mais e para isso se entregar a fazer mais e outra vez, de novo a mente, sem racionalizar, só para alimentar o fogo que não queima mas aquece e que se quer eterno em um momento do tempo que deixou de existir e infinito em um lugar pouco importa se grande ou fechado ou não porque todas as carícias desejos entregas movimentos pensamentos calores sons cheiros imagens olhares suspiros suores e outros líquidos cabem tão somente na massa que um dia foi corpos, pouco importa pois já não o são, tendo se tornado energia viva cinética potencial, relativa em sua troca e absoluta em seu domínio, tanta e estimulada auto-estimulada retro-estimulada mutuamente estimulada e que explode em gozo.




(Janeiro 2004)

Bom de se ter

À paz e ao amor de um tempo em que não vivi
Veria com prazer adicionado o sentido da alegria
Na alegria de certos dias de hoje em dia
Queria ver o sentido da vida feita de amor
E plena de paz

Tantos dias de paz viveria
Quantos fossem os de alegria
O dobro eu quereria de amor
Metade em cada um dos mesmos dias

Que amor existe pra ser dado
Alegria é boa compartilhada
E paz é o que é bom de se ter




(Dezembro 2003)

Máscara

No baile das máscaras, a mais bela disfaça a pior criatura, a mais traiçoeira e vil, aquela que joga sujo, porque é sua natureza. Enquanto todos tentam, se esforçam e manipulam para se dar bem, ou ao menos para evitar o mal contra si, aquele que fere e nunca sangra é o que tem o mal correndo nas veias. Não precisa de técnica nem de subterfúgios, apenas é assim. Vive seus infernos astrais como se estivesse de férias e, na volta ao trabalho, apenas retorna ao que sempre foi.

Será sempre assim? Alguém vai pará-lo? Domá-lo não será possível, porque preservará no íntimo sua natureza e, cedo ou tarde, ela se manifestará. Matá-lo pode ser a solução, mas quem de bem o faria? Somente alguém tão mau ou pior, e daí este tomaria seu lugar na mesma trilha de destruição e horror.

Ah! seres malévolos que habitam o mais escuro dos refúgios para onde se exilam os piores! venham buscar mais esta digna companhia! Caso se atrevam, pois mesmo aí ele exercerá seu poder arrebatador, seu dom maligno.

Ah! mas a máscara é tão bela que mesmo ele não se vê como realmente é! Olha-se no espelho e se orgulha e se assoberba! Reflete seu passado e vê, com lágrimas de alegria e jóia, todas as suas realizações! E ainda se assusta com a maldade, ingênua perto da sua, de quem tenta tirar vantagem das superficiais técnicas de malediciência, de manipulação da palavra, de exploração da credulidade humana... Se assusta e sente pena. Da sua próxima vítima.




(Março 2003)

Lavras Novas

Em 15 minutos cabe apenas contar os 15 minutos mais importantes dessas férias...

Foram os 15 minutos, em Lavras Novas, distrito de Ouro Preto, no meio do dia 9 de julho, em que, com o corpo ainda vibrando pela descarga de adrenalina do meu primeiro rapel - 46 metros com negativo logo de cara, e uma bela escalada de volta - os 15 minutos em que, sob o sol branco de inverno e deitados ao vento fresco sobre a pedra no alto do paredão, vi seus cachos de cabelo projetarem sombras esvoaçantes em minhas pálpebras fechadas, 15 minutos em que, se rolássemos pela pedra, ao invés de nos esborracharmos aos pés do paredão, flutuaríamos na leveza do beijo doce e calmo que trocamos. Mas se não rolamos nós pela pedra, rolaram, pelos dias que se seguiram, muitos 15 minutos das conversas mais inebriantes e dos carinhos mais ternos que Ouro Preto há de ter conhecido.





(Julho, 09 2003)

Por amor

Sofro.
Não por nada,
senão por pressão de mim mesmo.

E tanto por amor,
sim, só pode ser por amor.
Como não achar que é porque
não seja por outra coisa?
Porque sofreria, senão por amor?

Fico feliz que sejamos diferentes
Pois não poderia amar outro de mim
Mas tão diferentes que não queira
o mesmo que eu quero, oh infeliz
que por amor, quero tudo que quero




(Junho 2003)

Quero de volta

- Você também queria esta separação?
- Éramos apenas amigos, não tinha porque continuarmos juntos...

Esse "também" foi minha fraqueza, minha rota de fuga, inconscientemente colocada para proteger a mim mesmo, embora eu pudesse achar que fora para deixá-la mais à vontade com a pergunta. Eu a havia convidado para, finalmente, saber o que a levou a aceitar, sem pestanejar, minha iniciativa de falar em separação, mas tropecei em meu próprio "também" e fugi do assunto. Tomamos o café e fomos embora.

Mas eu não queria me separar. Não de verdade. Eu não a via como apenas como uma amiga. Eu estava cansado de tentar, de lutar, abatido, descrente, entregue. E achei que poderia ser a saída menos dolorosa, mas o que eu queria mesmo era descobrir o que fazer para tudo voltar a ser como no começo. Ou melhor, bom como no começo, porque igual ao que eram as coisas nunca voltam a ser. Foi um choque vê-la e ouvi-la concordar que era o melhor a fazer. Uma inversão de expectativa tão impactante, em sua tranqüilidade, que eu nem consegui questionar. Aceitei também. Naquela hora eu soube que essa era sua vontade, mais do que minha.

Levou-me tempo até entender que nossa falta de sintonia nada mais era do que essa sua vontade, fazendo por onde que eu tomasse a atitude, evitando-lhe a dor de dizer que já não me amava, a dor de tanto se abrir, e, de quebra, a minha dor ao ouvir-lhe dizer que já não me amava. Talvez, ainda, a dor que seria o causar-me essa dor. Então, posso entender como um ato de amor o eu ter-lhe poupado essas dores. Mas que ato de amor doente! E doente fiquei, sem saber para onde ir, sem poder amar de novo, refém desta dor, porque meu amor ficou à deriva, uma vez entregue e, então, abandonado.

Eu o quero de volta! Quero de volta para poder vivê-lo novamente. Agora, que eu sei que não era correspondido, ou entendido, talvez eu consiga recuperá-lo, reconstrui-lo, por minhas próprias forças. Mas como seria mais feliz recebê-lo de volta, das mãos a que um dia entreguei, não para ser guardado num relicário, mas para que brilhasse, radiante e ardente, e deitasse-lhe o mundo aos pés. Bastava-me saber o porquê.




(Abril 2003)

Capricho dos ventos

Ao capricho de quais sejam os ventos
Não sei de onde venho nem quando vou
Procuro em cada taça o seu brilho
O frio do trilho, o cheiro do mar

Procuro no brilho de cada taça
O cheiro do mar que nunca me toca
No som do sol a refletir em mim
A curva do rio, a cachoeira na pedra

Em noites vazias
Humores vadios a vagar por vielas
Truncadas sem janelas nem sentido
Nas sombras sem fronteiras ou futuro
Transpiram pelo muro dos horrores

Fluam em seu curso natural, deixem-me
Para que eu possa dormir outra vez
e acordar desse mundo infernal




(Agosto 2001)

Delícias

Um naco de gorgonzola
Uma garrafa de Bola
O amor de uma espanhola

Sim, soam carícias
estas rimas pobres
São somente delicias



(1994)

Exploda-se

Tantas idéias voláteis
presas na câmara hermética
da minha cabeça volúvel
Prementes na crítica marca
do limite suportável
buscam vazão, fluência,
Vir à luz, trazendo o brilho
do sopro vital que move
a barca presente do tempo.

A barreira do silêncio enforca
mas, já uma semente:
o grafite desliza corporificando
em risco negro a palavra.
Doce é o rasgo da linha,
o desejo de tecer, traçar
a trama poderosa da idéia
vigorosa, cristalina e concreta.




... de uma época em que palavra se escrevia a mão (1991)